Crtica, 7.	Cenas da vida amaznica, de Jos Verssimo, 1899

Cenas da vida amaznica. por
Jos Verssimo.

Texto-Fonte:

Crtica Literria de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado
na Gazeta de Notcias, janeiro de 1899.

Aqui est um livro que h de ser relido
com apreo, com interesse, no raro com admirao. O autor que ocupa lugar
eminente na crtica brasileira, tambm enveredou um dia pela novela, como
Sainte-Beuve, que escreveu Volupt, antes de atingir o sumo grau na
crtica francesa. Tambm h aqui um narrador e um observador, e h mais aquilo
que no acharemos em Volupt, um paisagista e um miniaturista. J era
tempo de dar s Cenas da vida amaznica outra e melhor edio. Eu, que
as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outrora. Os que as lerem, pela primeira
vez, diro se o meu falar desmente as suas prprias impresses.

Talvez achem comigo que o titulo 
exato, sem dizer tudo. So efetivamente cenas daquela vida e daquele meio;
sente-se que no podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas
diretamente. Mas no diz tudo o ttulo. Trs, ao menos, das quatro novelas em
que se divide o livro, so pequenos dramas completos. Tais o Boto, o Crime
do Tapuio e a Sorte de Vicentina. O prprio Voluntrio da ptria
tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietao na palhoa at aquele
adeus que ela fica acenando na margem, no j ao filho, que a no pode ver, nem
ela a ele, mas ao fumo do vapor que se perde ao longe no rio, como uma sombra.

Em todos eles, os costumes locais e a
natureza grande e rica, quando no  s spera e dura, servem de quadro a
sentimentos ingnuos, simples e alguma vez fortes. O Sr. Jos Verssimo possui
o dom da simpatia e da piedade. As suas principais figuras so as vtimas de um
meio rude, como Benedita, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquele Jos Tapuio, que
confessa um crime no existente, com o nico fim de salvar uma menina, ou de
faz bem p'ra ela, como diz o texto. No se irritem os amigos da lngua culta
com a prosdia e a sintaxe de Jos Tapuio. H dessas frases no livro, postas
com arte e cabimento, a espaos, onde  preciso caracterizar melhor as pessoas.
H locues da terra. H a tecnologia dos usos e costumes. Ningum esquece que
est diante da vida amaznica, no toda, mas aquela que o Sr. Jos Verssimo
escolheu naturalmente para dar-nos a viso do contraste entre o meio e o homem.

O contraste  grande. A floresta e a
gua envolvem e acabrunham a alma. A magnificncia daquelas regies chega a ser
excessiva. Tudo  inumervel e imensurvel. So milhes, milhares e centenas os
seres que vo pelos rios e igaraps, que espiam entre a gua e a terra, ou
bramam e cantam na mata, em meio de um concerto de rumores, cleras, delcias e
mistrios. O Sr. Jos Verssimo d-nos a sensao daquela realidade. A
descrio do caminho que leva ao povoado do Erer, atravs do coberto, do
lavrado e de um espao sem nome,  das mais belas e acabadas do livro. Assim
tambm a do Paru, ou antes a histria do rio nas duas partes do ano, de vero e
de inverno, um s lago intrmino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e
desaparecem, com os aspectos vrios do tempo e da margem.

No so descries trazidas de acarreto.
As pessoas das narrativas vo para ali continuar a ao comeada. No Paru, como
o tempo  de salga, a gua  sulcada de canoas, a margem alastrada de
barracas, o sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. A assistimos 
morte trgica do pelintra de bidos, regato de alguns dias, deixando uma
triste moa defunta, amarela e magra. Adiante, por meio do coberto e do
lavrado, vemos correr Vicentina, com a filha de alguns meses escarranchada
nos quadris, fugindo  casa do marido, depois s onas, depois  solido, que
parece maior ali que em nenhuma parte; e ambas as cenas so das mais vivas do
livro.

Ao p do trgico, o mesquinho, o comum,
o quotidiano da existncia e dos costumes, que o autor pinta breve ou
minuciosamente. Os pequenos quadros sucedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade
de bidos,  hora da sesta, ou no fim dela, quando a natureza estira os braos
num bocejo preguioso de quem deixa a rede. A rede  o mvel principal das
casas; ela serve ao sono, ao descanso,  palestra,  indolncia. Se a casa 
pobre, pouco mais h que ela; mas, pouco ou muito, podemos fiar-nos da
veracidade do autor, que no perde o que seja um rasgo de costumes ou possa
avivar a cor da realidade. Vimos o regato; veremos a benzedeira, a pintadeira
de cuias, a mameluca, sem excluso do jurado, do promotor, do presidente de
provncia.

Nem falta aqui a observao fina e
aguda. Uma senhora, a quem a tia Zeferina, que a criou, recorre chorando, para
que faa soltar o filho, preso para voluntrio (como diziam aqui no sul), ouve
a me tapuia, tem sincera pena dela, promete que sim, fala do presidente da
provncia, que  bom moo, do baile do dia 7 de setembro, em palcio, a que ela
foi: uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de verde e
amarelo; muitas tinham mandado vir o vestido do Par, mas foi tolice, porque em
Manaus arranjava-se um vestido to bom como no Par; o dela, por exemplo, foi
muito gabado... J a tia Zeferina ouvira coisa anloga ao major Rabelo, seu
compadre, quando lhe foi contar a priso do filho, e ele rompeu furioso contra
os adversrios polticos. Todos os negcios pessoais se vo coando assim
naquela agonia errante. No Boto,  o prprio pai de Rosinha, que no
escava muito as razes do abatimento mortal da filha, por andar atarefado com
as eleies.

Que ele tambm h eleies no Amazonas;
 o tempo da salga poltica, a quadra das barracas e dos regates. No nos d
um captulo desses o Sr. Jos Verssimo, naturalmente por lhe no ser
necessrio, mas a rivalidade da vila e do porto de Monte Alegre  um quadro
vivo do que so raivas locais, os motivos que as acendem, a guerra que fazem e
os dios que ficam. Aqui basta a questo de saber se o correio morar no porto,
em baixo, ou na vila em cima. E porque no h vitria sem foguetes, os foguetes
vo contar s nuvens o despacho presidencial. A sesso do jri, no Crime do
Tapuio,  outro quadro finamente acabado. Tudo sem sombra de caricatura. O
embarque dos voluntrios  outro, mas a a emoo discreta acompanha os
movimentos mal ordenados dos homens. Ns os vimos desembarcar aqui, esses e
outros, trpegos e obedientes, marchando mal, mas enfim marchando seguros para
a guerra que j l vai.

Em to vrias cenas e lances, o estilo
do Sr. Jos Verssimo (salvo nos Esbocetos, cuja estrutura  diferente)
 j o estilo correntio e vernculo dos seus escritos posteriores. J ento
vemos o homem feito, de mo assentada, dominando a matria. H, a mais, uma
nota de poesia, a graa e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem sempre
consentem. Aqui est a frente da casa do stio em que Rosinha nasceu: A palha
da cobertura, no aparada, dava-lhe o aspeto alvar das crianas que trazem os
cabelos cados na testa. No tempo da pesca emigram, no s os homens, mas
tambm os ces e os urubus. Os ces so magros e famintos: Ces magros, com as
costelas salientes, como se houvessem engolido arcos de barris... Os urubus
pousam nas rvores, alguma vez baixam ao solo, andando com o seu passo ritmado
de anjos de procisso. A umas arvores que h na grande charneca do coberto,
bastava mostr-las por uma imagem curta e viva, em posies retorcidas de
entrevados. Mas no se contenta o nosso autor de as dizer assim: em terra tal,
tudo h de vibrar ao calor do sol: Dir-se-ia que o sol, que abrasa aquelas
paragens, obriga-as a tais contores violentas e paralisa-as depois...

H muitas dessas imagens originais e
expressivas; melhor  l-las ou rel-las intercaladas na narrao e na
descrio. Chateaubriand, escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a propsito de Volupt, que acabava de sair do prelo, pergunta-lhe admirado como
 que ele, Ren, no achara tantas outras. Coment n'ai-je pas trouv ces deux vieillards et
ces deux enfants entre lesquels une rvolution a pass... etc. Desculpe a pontinha de vaidade,  de Chateaubriand, e alguma
coisa se h de perdoar ao gnio. Mas, em verdade, mais de um de ns outros
poderamos dizer com sinceridade e modstia como  que nos no acudiram tais e
tais imagens do nosso autor, pois que elas trazem a feio de coisas antes
sadas do tinteiro que compostas no papel.

Tambm  dado perguntar por que  que o
Sr. Jos Verssimo deixou logo um terreno que soube arrotear com fruto. Ele
dir, em uma nota, falando dos Esbocetos, que o fruto era da primeira
mocidade. V que sim; mas as Cenas trazem outra experincia, e a boa
terra no  esquecida, se se lhe encomenda alguma coisa com amor.

At l, fiquem-nos estas Cenas da
vida amaznica. Mais tarde, algum crtico da escola do autor compulsar as
suas pginas para restituir costumes extintos. Muito estar mudado. Onde Jos
Tapuio lutou com a sicurij at mat-la, outro homem estudar alguma nova fora
da natureza at reduzi-la ao domstico. Coberto e lavrado daro melhor caminho
s pessoas. J agora, como disse nh Miloca  me tapuia, os vestidos fazem-se
to bons em Manaus como em Belm. A poltica ir pelas tesouras da costureira,
e a natureza agasalhar todas as artes suas hspedas. Tal crtico, se tiver o
mesmo dom de anlise do Sr. Jos Verssimo, achar que um testemunho
esclarecido  mais cabal que outro, e regular os seus leitores, dando-lhes
este depoimento feito com emoo, com exao e com estilo.


