Crtica, Notcia da atual literatura brasileira, 1873

Notcia da atual
literatura brasileira. Instinto de nacionalidade

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente em O Novo Mundo, 24/03/1873.

Quem
examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro trao,
certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literrias do
pensamento buscam vestir-se com as cores do pas, e no h negar que semelhante
preocupao  sintoma de vitalidade e abono de futuro. As tradies de
Gonalves Dias, Porto-Alegre e Magalhes so assim continuadas pela gerao j
feita e pela que ainda agora madruga, como aqueles continuaram as de Jos
Baslio da Gama e Santa Rita Duro. Escusado  dizer a vantagem deste universal
acordo. Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e
poetas acharo ali farto manancial de inspirao e iro dando fisionomia
prpria ao pensamento nacional. Esta outra independncia no tem Sete de
Setembro nem campo de Ipiranga; no se far num dia, mas pausadamente, para
sair mais duradoura; no ser obra de uma gerao nem duas; muitas trabalharo
para ela at perfaz-la de todo.

Sente-se
aquele instinto at nas manifestaes da opinio, alis mal formada ainda,
restrita em extremo, pouco solcita, e ainda menos apaixonada nestas questes
de poesia e literatura. H nela um instinto que leva a aplaudir principalmente
as obras que trazem os toques nacionais. A juventude literria, sobretudo, faz
deste ponto uma questo de legtimo amor-prprio. Nem toda ela ter meditado os
poemas de Uruguai e Caramuru com aquela ateno que tais obras
esto pedindo; mas os nomes de Baslio da Gama e Duro so citados e amados,
como precursores da poesia brasileira. A razo  que eles buscaram em roda de
si os elementos de uma poesia nova, e deram os primeiros traos de nossa
fisionomia literria, enquanto que outros, Gonzaga por exemplo, respirando
alis os ares da ptria, no souberam desligar-se das faixas da Arcdia nem dos
preceitos do tempo. Admira-se-lhes o talento, mas no se lhes perdoa o cajado e
a pastora, e nisto h mais erro que acerto.

Dado que
as condies deste escrito o permitissem, no tomaria eu sobre mim a defesa do
mau gosto dos poetas arcdicos nem o fatal estrago que essa escola produziu nas
literaturas portuguesa e brasileira. No me parece, todavia, justa a censura
aos nossos poetas coloniais, iscados daquele mal; nem igualmente justa a de no
haverem trabalhado para a independncia literria, quando a independncia
poltica jazia ainda no ventre do futuro, e mais que tudo, quando entre a
metrpole e a colnia criara a histria a homogeneidade das tradies, dos
costumes e da educao. As mesmas obras de Baslio da Gama e Duro quiseram
antes ostentar certa cor local do que tornar independente a literatura
brasileira, literatura que no existe ainda, que mal poder ir alvorecendo
agora.

Reconhecido
o instinto de nacionalidade que se manifesta nas obras destes ltimos tempos,
conviria examinar se possumos todas as condies e motivos histricos de uma
nacionalidade literria; esta investigao (ponto de divergncia entre
literatos), alm de superior s minhas foras, daria em resultado levar-me
longe dos limites deste escrito. Meu principal objeto  atestar o fato atual;
ora, o fato  o instinto de que falei, o geral desejo de criar uma literatura
mais independente.

A
apario de Gonalves Dias chamou a ateno das musas brasileiras para a
histria e os costumes indianos. Os Timbiras, I-Juca Pirama, Tabira
e outros poemas do egrgio poeta acenderam as imaginaes; a vida das tribos,
vencidas h muito pela civilizao, foi estudada nas memrias que nos deixaram
os cronistas, e interrogadas dos poetas, tirando-lhes todos alguma coisa, qual
um idlio, qual um canto pico.

Houve
depois uma espcie de reao. Entrou a prevalecer a opinio de que no estava
toda a poesia nos costumes semibrbaros anteriores  nossa civilizao, o que
era verdade,  e no tardou o conceito de que nada tinha a poesia com a
existncia da raa extinta, to diferente da raa triunfante,  o que parece um
erro.

 certo
que a civilizao brasileira no est ligada ao elemento indiano, nem dele
recebeu influxo algum; e isto basta para no ir buscar entre as tribos vencidas
os ttulos da nossa personalidade literria. Mas se isto  verdade, no  menos
certo que tudo  matria de poesia, uma vez que traga as condies do belo ou
os elementos de que ele se compe. Os que, como o Sr. Varnhagen, negam tudo aos
primeiros povos deste pas, esses podem logicamente exclu-los da poesia
contempornea. Parece-me, entretanto, que, depois das memrias que a este
respeito escreveram os Srs. Magalhes e Gonalves Dias, no  lcito arredar o
elemento indiano da nossa aplicao intelectual. Erro seria constitu-lo um
exclusivo patrimnio da literatura brasileira; erro igual fora certamente a sua
absoluta excluso. As tribos indgenas, cujos usos e costumes Joo Francisco
Lisboa cotejava com o livro de Tcito e os achava to semelhantes aos dos
antigos germanos, desapareceram,  certo, da regio que por tanto tempo fora
sua; mas a raa dominadora que as freqentou, colheu informaes preciosas e
no-las transmitiu como verdadeiros elementos poticos. A piedade, a minguarem
outros argumentos de maior valia, devera ao menos inclinar a imaginao dos
poetas para os povos que primeiro beberam os ares destas regies, consorciando
na literatura os que a fatalidade da histria divorciou.

Esta 
hoje a opinio triunfante. Ou j nos costumes puramente indianos, tais quais os
vemos n'Os Timbiras, de Gonalves Dias, ou j na luta do elemento
brbaro com o civilizado, tem a imaginao literria do nosso tempo ido buscar
alguns quadros de singular efeito, dos quais citarei, por exemplo, a Iracema,
do Sr. J. de Alencar, uma das primeiras obras desse fecundo e brilhante
escritor.

Compreendendo
que no est na vida indiana todo o patrimnio da literatura brasileira, mas
apenas um legado, to brasileiro como universal, no se limitam os nossos
escritores a essa s fonte de inspirao. Os costumes civilizados, ou j do
tempo colonial, ou j do tempo de hoje, igualmente oferecem  imaginao boa e
larga matria de estudo. No menos que eles, os convida a natureza americana,
cuja magnificncia e esplendor naturalmente desafiam a poetas e prosadores. O
romance, sobretudo, apoderou-se de todos esses elementos de inveno, a que
devemos, entre outros, os livros dos Srs. Bernardo Guimares, que brilhante e
ingenuamente nos pinta os costumes da regio em que nasceu, J. de Alencar,
Macedo, Slvio Dinarte (Escragnolle Taunay), Franklin Tvora, e alguns mais.

Devo
acrescentar que neste ponto manifesta-se s vezes uma opinio, que tenho por
errnea:  a que s reconhece esprito nacional nas obras que tratam de assunto
local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa
literatura. Gonalves Dias, por exemplo, com poesias prprias seria admitido no
panteo nacional; se excetuarmos Os Timbiras, os outros poemas
americanos, e certo nmero de composies, pertencem os seus verses pelo
assunto a toda a mais humanidade, cujas aspiraes, entusiasmo, fraquezas e
dores geralmente cantam; e excluo da as belas Sextilhas de Frei Anto,
que essas pertencem unicamente  literatura portuguesa, no s pelo assunto que
o poeta extraiu dos historiadores lusitanos, mas at pelo estilo que ele
habilmente fez antiquado. O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais
tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de
casa, e no acabaria se fosse necessrio recorrer aos estranhos. Mas, pois que
isto vai ser impresso em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se
o autor do Song of Hiawatha no  o mesmo autor da Golden Legend,
que nada tem com a terra que o viu nascer, e cujo cantor admirvel ; e
perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Jlio Csar, a Julieta
e Romeu tm alguma coisa com a histria inglesa nem com o territrio
britnico, e se, entretanto, Shakespeare no , alm de um gnio universal, um
poeta essencialmente ingls.

No h
dvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve
principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua regio; mas no
estabeleamos doutrinas to absolutas que a empobream. O que se deve exigir do
escritor antes de tudo,  certo sentimento ntimo, que o torne homem do seu
tempo e do seu pas, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no
espao. Um notvel crtico da Frana, analisando h tempos um escritor escocs,
Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser breto sem
falar sempre do tojo, assim Masson era bem escocs, sem dizer palavra do cardo,
e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior,
diverso e melhor do que se fora apenas superficial.

Estes e
outros pontos cumpria  crtica estabelec-los, se tivssemos uma crtica
doutrinria, ampla, elevada, correspondente ao que ela  em outros pases. No
a temos. H e tem havido escritos que tal nome merecem, mas raros, a espaos,
sem a influncia cotidiana e profunda que deveram exercer. A falta de uma
crtica assim  um dos maiores males de que padece a nossa literatura;  mister
que a anlise corrija ou anime a inveno, que os pontos de doutrina e de
histria se investiguem, que as belezas se estudem, que os senes se apontem,
que o gosto se apure e eduque, para que a literatura saia mais forte e viosa,
e se desenvolva e caminhe aos altos destinos que a esperam.

O Romance

De todas
as formas vrias as mais cultivadas atualmente no Brasil so o romance e a
poesia lrica; a mais apreciada  o romance, como alis acontece em toda a
parte, creio eu. So fceis de perceber as causas desta preferncia da opinio,
e por isso no me demoro em apont-las. No se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia, de lingstica, de crtica histrica, de alta poltica, e
outros assim, que em alheios pases acham fcil acolhimento e boa extrao;
raras so aqui essas obras e escasso o mercado delas. O romance pode-se dizer
que domina quase exclusivamente. No h nisto motivo de admirao nem de
censura, tratando-se de um pas que apenas entra na primeira mocidade, e esta
ainda no nutrida de slidos estudos. Isto no  desmerecer o romance, obra
d'arte como qualquer outra, e que exige da parte do escritor qualidades de boa
nota.

Aqui o
romance, como tive ocasio de dizer, busca sempre a cor local. A substncia,
no menos que os acessrios, reproduzem geralmente a vida brasileira em seus
diferentes aspectos e situaes. Naturalmente os costumes do interior so os
que conservam melhor a tradio nacional; os da capital do pas, e em parte, os
de algumas cidades, muito mais chegados  influncia europia, trazem j uma
feio mista e ademanes diferentes. Por outro lado, penetrando no tempo
colonial, vamos achar uma sociedade diferente, e dos livros em que ela 
tratada, alguns h de mrito real.

No
faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de observao e de anlise, e
um estrangeiro no familiar com os nossos costumes achar muita pgina
instrutiva. Do romance puramente de anlise, rarssimo exemplar temos, ou
porque a nossa ndole no nos chame para a, ou porque seja esta casta de obras
ainda incompatvel com a nossa adolescncia literria.

O romance
brasileiro recomenda-se especialmente pelos toques do sentimento, quadros da
natureza e de costumes, e certa viveza de estilo muito adequada ao esprito do
nosso povo. H em verdade ocasies em que essas qualidades parecem sair da sua
medida natural, mas em regra conservam-se estremes de censura, vindo a sair
muita coisa interessante, muita realmente bela. O espetculo da natureza,
quando o assunto o pede, ocupa notvel lugar no romance, e d pginas animadas
e pitorescas, e no as cito por me no divertir do objeto exclusivo deste
escrito, que  indicar as excelncias e os defeitos do conjunto, sem me demorar
 em pormenores. H boas pginas, como digo, e creio at que um grande amor a
este recurso da descrio, excelente, sem dvida, mas (como dizem os mestres)
de mediano efeito, se no avultam no escritor outras qualidades essenciais.

Pelo que
respeita  anlise de paixes e caracteres so muito menos comuns os exemplos
que podem satisfazer  crtica; alguns h, porm, de merecimento incontestvel.
Esta , na verdade, uma das partes mais difceis do romance, e ao mesmo tempo
das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes no vulgares
de observao, que, ainda em literaturas mais adiantadas, no andam a rodo nem
so a partilha do maior nmero.

As
tendncias morais do romance brasileiro so geralmente boas. Nem todos eles
sero de princpio a fim irrepreensveis; alguma coisa haver que uma crtica
austera poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral  bom. Os livros de certa
escola francesa, ainda que muito lidos entre ns, no contaminaram a literatura
brasileira, nem sinto nela tendncias para adotar as suas doutrinas, o que  j
notvel mrito. As obras de que falo, foram aqui bem-vindas e festejadas, como
hspedes, mas no se aliaram  famlia nem tomaram o governo da casa. Os nomes
que principalmente seduzem a nossa mocidade so os do perodo romntico; os
escritores que se vo buscar para fazer comparaes com os nossos,  porque h
aqui muito amor a essas comparaes  so ainda aqueles com que o nosso
esprito se educou, os Vtor Hugos, os Gautiers, os Mussets, os Gozlans, os
Nervals.

Isento
por esse lado o romance brasileiro, no menos o est de tendncias polticas, e
geralmente de todas as questes sociais,  o que no digo por fazer elogio, nem
ainda censura, mas unicamente para atestar o fato. Esta casta de obras
conserva-se aqui no puro domnio de imaginao, desinteressada dos problemas do
dia e do sculo, alheia s crises sociais e filosficas. Seus principais
elementos so, como disse, a pintura dos costumes, a luta das paixes, os
quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com
esses elementos, que so fecundssimos, possumos j uma galeria numerosa e a
muitos respeitos notvel.

No gnero
dos contos,  maneira de Henri Murger, ou  de Trueba, ou  de Ch. Dickens, que
to diversos so entre si, tm havido tentativas mais ou menos felizes, porm
raras, cumprindo citar, entre outros, o nome do Sr. Lus Guimares Jnior,
igualmente folhetinista elegante e jovial.  gnero difcil, a despeito da sua
aparente facilidade, e creio que essa mesma aparncia lhe faz mal, afastando-se
dele os escritores, e no lhe dando, penso eu, o pblico toda a ateno de que
ele  muitas vezes credor.

Em
resumo, o romance, forma extremamente apreciada e j cultivada com alguma
extenso,  um dos ttulos da presente gerao literria. Nem todos os livros,
repito, deixam de se prestar a uma crtica minuciosa e severa, e se a
houvssemos em condies regulares, creio que os defeitos se corrigiriam, e as
boas qualidades adquiririam maior realce. H geralmente viva imaginao,
instinto do belo, ingnua admirao da natureza, amor s coisas ptrias, e alm
de tudo isto agudeza e observao. Boa e fecunda terra, j deu frutos
excelentes e os h de dar em muito maior escala.

A Poesia

A ao da
crtica seria sobretudo eficaz em relao  poesia. Dos poetas que apareceram
no decnio de 1850 a 1860, uns levou-os a morte ainda na flor dos anos, como
lvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, cujos nomes excitam na
nossa mocidade legtimo e sincero entusiasmo, e bem assim outros de no menor
porte. Os que sobreviveram calaram as liras; e se uns voltaram as suas atenes
para outro gnero literrio, como Bernardo Guimares, outros vivem dos louros
colhidos, se  que no preparam obras de maior tomo, como se diz de Varela,
poeta que j pertence ao decnio de 1860 a 1870. Neste ltimo prazo outras vocaes apareceram e numerosas, e basta citar um Crespo, um Serra, um Trajano,
um Gentil-Homem de Almeida Braga, um Castro Alves, um Lus Guimares, um
Rosendo Moniz, um Carlos Ferreira, um Lcio de Mendona, e tantos mais, para
mostrar que a poesia contempornea pode dar muita coisa; se algum destes, como
Castro Alves, pertence  eternidade, seus versos podem servir e servem de
incentivo s vocaes nascentes.

Competindo-me
dizer o que acho da atual poesia, atenho-me s aos poetas de recentssima data,
melhor direi a uma escola agora dominante, cujos defeitos me parecem graves,
cujos dotes  valiosos, e que poder dar muito de si, no caso de adotar a
necessria emenda.

No
faltam  nossa atual poesia fogo nem estro. Os versos publicados so geralmente
ardentes e trazem o cunho da inspirao. No insisto na cor local; como acima
disse, todas as formas a revelam com mais ou menos brilhante resultado;
bastando-me citar neste caso as outras duas recentes obras, as Miniaturas
de Gonalves Crespo e os Quadros de J. Serra, versos estremados dos
defeitos que vou assinalar. Acrescentarei que tambm no falta  poesia atual o
sentimento da harmonia exterior. Que precisa ela ento? Em que peca a gerao
presente? Falta-lhe um pouco mais de correo e gosto; peca na intrepidez s
vezes da expresso, na impropriedade das imagens na obscuridade do pensamento.
A imaginao, que h deveras, no raro desvaira e se perde, chegando 
obscuridade,  hiprbole, quando apenas buscava a novidade e a grandeza. Isto
na alta poesia lrica,  na ode, diria eu, se ainda subsistisse a antiga
potica; na poesia ntima e elegaca encontram-se os mesmos defeitos, e mais um
amaneirado no dizer e no sentir, o que tudo mostra na poesia contempornea
grave doena, que  fora combater.

Bem sei
que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e
expresses adequadas. O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os
campos do Sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnificncias
de vegetao,  no h dvida que so painis que desafiam o estro, mas, por isso
mesmo que so grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com
simplicidade. Ambas essas condies faltam  poesia contempornea, e no  que
escasseiem modelos, que a esto, para s citar trs nomes, os versos de
Bernardo Guimares, Varela e lvares de Azevedo. Um nico exemplo bastar para
mostrar que a oportunidade e a simplicidade so cabais para reproduzir uma
grande imagem ou exprimir uma grande idia. N'Os Timbiras, h uma
passagem em que o velho Ogib ouve censurarem-lhe o filho, porque se afasta dos
outros guerreiros e vive s. A fala do ancio comea com estes primorosos
versos:

So
torpes os anuns, que em bandos folgam,

So maus
os caititus que em varas pascem:

Somente o
sabi geme sozinho,

E sozinho
o condor aos cus remonta.

Nada mais
oportuno nem mais singelo do que isto. A escola a que aludo no exprimiria a
idia com to simples meios, e faria mal, porque o sublime  simples. Fora para
desejar que ela versasse e meditasse longamente estes e outros modelos que a
literatura brasileira lhe oferece. Certo, no lhe falta, como disse,
imaginao; mas esta tem suas regras, o estro leis, e se h casos em que eles
rompem as leis e as regras,  porque as fazem novas,  porque se chamam
Shakespeare, Dante, Goethe, Cames.

Indiquei
os traos gerais. H alguns defeitos peculiares a alguns livros, como por
exemplo, a anttese, creio que por imitao de Vtor Hugo. Nem por isso acho
menos condenvel o abuso de uma figura que, se nas mos do grande poeta produz
grandes efeitos, no pode constituir objeto de imitao, nem sobretudo
elementos de escola.



H tambm
uma parte da poesia que, justamente preocupada com a cor local, cai muitas
vezes numa funesta iluso. Um poeta no  nacional s porque insere nos seus
versos muitos nomes de flores ou aves do pas, o que pode dar uma nacionalidade
de vocabulrio e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas  preciso que a
imaginao lhe d os seus toques, e que estes sejam naturais, no de acarreto.
Os defeitos que resumidamente aponto no os tenho por incorrigveis; a crtica
os emendaria; na falta dela, o tempo se incumbir de trazer s vocaes as
melhores leis. Com as boas qualidades que cada um pode reconhecer na recente
escola de que falo, basta a ao do tempo, e se entretanto aparecesse uma grande
vocao potica, que se fizesse reformadora,  fora de dvida que os bons
elementos entrariam em melhor caminho, e  poesia nacional restariam as
tradies do perodo romntico.



O Teatro

Esta
parte pode reduzir-se a uma linha de reticncia. No h atualmente teatro
brasileiro, nenhuma pea nacional se escreve, rarssima pea nacional se
representa. As cenas teatrais deste pas viveram sempre de tradues, o que no
quer dizer que no admitissem alguma obra nacional quando aparecia. Hoje, que o
gosto pblico tocou o ltimo grau da decadncia e perverso, nenhuma esperana
teria quem se sentisse com vocao para compor obras severas de arte. Quem lhas
receberia, se o que domina  a cantiga burlesca ou obscena, o canc, a mgica
aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

E todavia
a continuar o teatro, teriam as vocaes novas alguns exemplos no remotos, que
muito as haviam de animar. No falo das comdias do Pena, talento sincero e
original, a quem s faltou viver mais para aperfeioar-se e empreender obras de
maior vulto; nem tambm das tragdias de Magalhes e dos dramas de Gonalves
Dias, Porto-Alegre e Agrrio. Mais recentemente, nestes ltimos doze ou catorze
anos, houve tal ou qual movimento. Apareceram ento os dramas e comdias do Sr.
J. de Alencar, que ocupou o primeiro lugar na nossa escola realista e cujas
obras Demnio Familiar e Me so de notvel merecimento. Logo em
seguida apareceram vrias outras composies dignas do aplauso que tiveram,
tais como os dramas dos Srs. Pinheiro Guimares, Quintino Bocaiva e alguns
mais; mas nada disso foi adiante. Os autores cedo se enfastiaram da cena que a
pouco e pouco foi decaindo at chegar ao que temos hoje, que  nada.

A
provncia ainda no foi de todo invadida pelos espetculos de feira; ainda l
se representa o drama e a comdia,  mas no aparece, que me conste, nenhuma
obra nova e original. E com estas poucas linhas fica liquidado este ponto.

A Lngua

Entre os
muitos mritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da linguagem.
No  raro ver intercalado em bom estilo os solecismos da linguagem comum,
defeito grave, a que se junta o da excessiva influncia da lngua francesa.
Este ponto  objeto de divergncia entre os nossos escritores. Divergncia
digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorncia ou preguia,
outros h que os adotam por princpio, ou antes por uma exagerao de
princpio.

No h
dvida que as lnguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos
usos e costumes. Querer que a nossa pare no sculo de quinhentos,  um erro
igual ao de afirmar que a sua transplantao para a Amrica no lhe inseriu
riquezas novas. A este respeito a influncia do povo  decisiva. H, portanto,
certos modos de dizer, locues novas, que de fora entram no domnio do estilo
e ganham direito de cidade.

Mas se
isto  um fato incontestvel, e se  verdadeiro o princpio que dele se deduz,
no me parece aceitvel a opinio que admite todas as alteraes da linguagem,
ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A
influncia popular tem um limite; e o escritor no est obrigado a receber e
dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr.
Pelo contrrio, ele exerce tambm uma grande parte de influncia a este
respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeioando-lhe a razo.

Feitas as
excees devidas no se lem muito os clssicos no Brasil. Entre as excees
poderia eu citar at alguns escritores cuja opinio  diversa da minha neste ponto,
mas que sabem perfeitamente os clssicos. Em geral, porm, no se lem, o que 
um mal. Escrever como Azurara ou Ferno Mendes seria hoje um anacronismo
insuportvel. Cada tempo tem o seu estilo. Mas estudar-lhes as formas mais
apuradas da linguagem, desentranhar deles mil riquezas, que,  fora de velhas
se fazem novas,  no me parece que se deva desprezar. Nem tudo tinham os
antigos, nem tudo tm os modernos; com os haveres de uns e outros  que se
enriquece o peclio comum.

Outra
coisa de que eu quisera persuadir a mocidade  que a precipitao no lhe
afiana muita vida aos seus escritos. H um prurido de escrever muito e
depressa; tira-se disso glria, e no posso negar que  caminho de aplausos. H
inteno de igualar as criaes do esprito com as da matria, como se elas no
fossem neste caso inconciliveis. Faa muito embora um homem a volta ao mundo
em oitenta dias; para uma obra-prima do esprito so precisos alguns mais.

Aqui
termino esta notcia. Viva imaginao, delicadeza e fora de sentimentos,
graas de estilo, dotes de observao e anlise, ausncia s vezes de gosto,
carncias s vezes de reflexo e pausa, lngua nem sempre pura, nem sempre
copiosa, muita cor local, eis aqui por alto os defeitos e as excelncias da
atual literatura brasileira, que h dado bastante e tem certssimo futuro.
