Crtica, Jos de Alencar: Iracema, 186

Jos de Alencar: Iracema

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente na Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro,
23/01/1866.



A escola potica, chamada escola americana, teve
sempre adversrios, o que no importa dizer que houvesse controvrsia pblica.
A discusso literria no nosso pas  uma espcie de steeple-chase,
que se organiza de quando em quando; fora disso a discusso trava-se no
gabinete, na rua, e nas salas. No passa da em nos parece que se deva chamar
escola ao movimento que atraiu as musas nacionais para o tesouro das tradies
indgenas. Escola ou no, a verdade  que muita gente viu na poesia americana
uma aberrao selvagem, uma distrao sem graa, nem gravidade. At certo ponto
tinha razo: muitos poetas, entendendo mal a musa de Gonalves Dias, e no
podendo entrar no fundo do sentimento e das idias, limitaram-se a tirar os
seus elementos poticos do vocabulrio indgena; rimaram as palavras, e no
passaram adiante; os adversrios, assustados com a poesia desses tais,
confundiram no mesmo desdm os criadores e os imitadores, e cuidaram
desacreditar a idia fulminando os intrpretes incapazes.

Erravam decerto: se a histria e os costumes
indianos inspiraram poetas como Jos Baslio, Gonalves Dias, e Magalhes, 
que se podia tirar dali criaes originais, inspiraes novas. Que importava a
invaso da turbamulta? A poesia deixa de ser a misteriosa linguagem dos
espritos, s porque alguns maus rimadores foram assentar-se ao sop do
Parnaso? O mesmo se d com a poesia americana. Havia tambm outro motivo para
conden-la: supunham os crticos que a vida indgena seria, de futuro, a tela
exclusiva da poesia brasileira, e nisso erravam tambm, pois no podia entrar
na idia dos criadores, obrigar a musa nacional a ir buscar todas as suas
inspiraes no estudo das crnicas e da lngua primitiva. Esse estudo era um
dos modos de exercer a poesia nacional; mas, fora dele, no est a a prpria
natureza, opulenta, fulgurante, vivaz, atraindo os olhos dos poetas, e
produzindo pginas como as de Porto Alegre e Bernardo Guimares?

Felizmente, o tempo vai esclarecendo os nimos; a
poesia dos caboclos est completamente nobilitada; os rimadores de palavras
j no podem conseguir o descrdito da idia, que venceu com o autor de
'I-Juca-Pirama', e acaba de vencer com o autor de Iracema. 
deste livro que vamos falar hoje aos nossos leitores.

As tradies Indgenas encerram motivos para
epopias e para, glogas; podem inspirar os seus Homeros e os seus Tecritos.
H a lutas gigantescas, audazes capites, iladas sepultadas no esquecimento;
o amor, a amizade, os costumes domsticos tendo a simples natureza por teatro,
oferecem  musa lrica, pginas deliciosas de sentimento e de originalidade. A
mesma pena que escreveu 'I-Juca Pirama' traou o lindo monlogo de
'Marab'; o aspecto do ndio Kob e a figura potica de Lindia so
filhos da mesma cabea; as duas partes dos Natchez resumem do mesmo modo
a dupla inspirao da fonte indgena. O poeta tem muito para escolher nessas
runas j exploradas, mas no completamente conhecidas. O livro do Sr. Jos de
Alencar, que  um poema em prosa, no  destinado a cantar lutas hericas, nem
cabos de guerra; se h a algum episdio, nesse sentido, se alguma vez troa nos
vales do Cear a pocema da guerra, nem por isso o livro deixa de ser
exclusivamente votado  histria tocante de uma virgem indiana, dos seus amores
e dos seus infortnios. Estamos certos de que no falta ao autor de Iracema
energia e vigor para a pintura dos vultos hericos e das paixes guerreiras;
lrapu e Poti a esse respeito so irrepreensveis; o poema de que o autor nos
fala deve surgir  luz, e ento veremos como a sua musa emboca a tuba
pica;  este livro, porm, limita-se a falar do sentimento, v-se que no
pretende sair fora do corao.

Estudando profundamente a lngua e os costumes dos
selvagens, obrigou-nos o autor a entrar mais ao fundo da poesia americana;
entendia ele, e entendia bem, que a poesia americana no estava completamente
achada; que era preciso prevenir-se contra um anacronismo moral, que consiste
em dar idias modernas e civilizadas aos filhos incultos da floresta. O intuito
era acertado; no conhecemos a lngua indgena; no podemos afirmar se o autor
pde realizar as suas promessas, no que respeita  linguagem da sociedade
indiana, s suas idias, s suas imagens; mas a verdade  que relemos
atentamente o livro do Sr. Jos de Alencar, e o efeito que ele nos causa 
exatamente o mesmo a que o autor entende que se deve destinar ao poeta
americano; tudo ali nos parece primitivo; a ingenuidade dos sentimentos, o
pitoresco da linguagem, tudo, at a parte narrativa do livro, que nem parece
obra de um poeta moderno, mas uma histria de bardo indgena, contada aos
irmos,  porta da cabana, aos ltimos raios do sol que se entristece. A
concluso a tirar daqui  que o autor houve-se nisto com uma cincia e uma
conscincia, para as quais todos os louvores so poucos.

A fundao do Cear, os amores de Iracema e Martim,
o dio de duas naes adversrias, eis o assunto do livro. H um argumento
histrico, sacado das crnicas, mas esse  apenas a tela que serve ao poeta; o
resto  obra da imaginao. Sem perder de vista os dados colhidos nas velhas
crnicas, criou o autor uma ao interessante, episdios originais, e mais que
tudo, a figura bela e potica de Iracema. Apesar do valor histrico de alguns
personagens, com Martim e Poti (o clebre Camaro, da guerra holandesa), a
maior soma de interesse concentra-se na deliciosa filha de Araken. A pena do
cantor d'O Guarani  feliz nas criaes femininas; as mulheres dos seus
livros trazem sempre um cunho de originalidade, de delicadeza, e de graa, que
se nos gravam logo na memria e no corao. Iracema  da mesma famlia. Em
poucas palavras descreve o poeta a beleza fsica daquela Diana selvagem. Uma
frase imaginosa e concisa, a um tempo, exprime tudo.

A beleza moral vem depois, com o andar dos
sucessos: a filha do paj, espcie de vestal indgena, vigia do segredo da
jurema,  um complexo de graas e de paixo, de beleza e de sensibilidade, de
casta reserva e de amorosa dedicao. Reala-lhe a beleza nativa a poderosa
paixo do amor selvagem, do amor que procede da virgindade da natureza,
participa da independncia dos bosques, cresce na solido, alenta-se do ar
agreste da montanha.

Casta, reservada, na misso sagrada que lhe impe a
religio do seu pas, nem por isso Iracema resiste  invaso de um sentimento
novo para ela, e que transforma a vestal em mulher. No resiste, nem indaga; desde que os olhos de Martim se trocaram com os seus, a moa
curvou a cabea quela doce escravido. Se o amante a abandonasse, a selvagem
iria morrer de desgosto e de saudade, no fundo do bosque, mas no oporia ao
volvel mancebo nem uma splica nem uma ameaa. Pronta a sacrificar-se por ele,
no pediria a mnima compensao do sacrifcio. No pressente o leitor, atravs
da nossa frase inculta e sensabor, uma criao profundamente verdadeira? No se
v na figura de Iracema, uma perfeita combinao do sentimento humano com a
educao selvagem? Eis o que  Iracema, criatura copiada da natureza,
idealizada pela arte, mostrando atravs da rusticidade dos costumes, uma alma
prpria para amar e para sentir.

Iracema  tabajara; entre a sua nao e a nao
potiguara h um dio de sculos; Martim, aliado dos potiguaras, andando
erradio, entra no seio dos tabajaras, onde  acolhido com a franqueza prpria
de uma sociedade primitiva;  estrangeiro,  sagrado; a hospitalidade selvagem
 descrita pelo autor com cores simples e vivas.

O europeu abriga-se na cabana de Araken, onde a
solicitude de Iracema prepara-lhe algumas horas de folgada ventura.

O leitor v despontar o amor de Iracema ao contacto
do homem civilizado. Que simplicidade, e que interesse! Martim cede a pouco e
pouco  influncia invencvel daquela amorosa solicitude. Um dia lembra-lhe a
ptria e sente-se tomado de saudade:  'Uma noiva te espera?'
pergunta Iracema.

O silncio  a resposta do moo. A virgem no
censura, nem suplica; dobra a cabea sobre a espdua, diz o autor, como a tenra
planta da carnaba, quando a chuva peneira na vrzea.

Desculpe o autor se desfolhamos por este modo a sua
obra; no escolhemos belezas, onde as belezas sobram, trazemos ao papel estes
traos que nos parecem caracterizar a sua herona, e indicar ao leitor, ainda
que remotamente, a beleza da filha de Araken.

Herona, dissemos, e o  decerto, naquela divina
resignao. Uma noite, no seio da cabana, a virgem de Tup torna-se esposa de
Martim; cena delicadamente escrita, que o leitor adivinha, sem ver. Desde ento
Iracema disps de si; a sua sorte est ligada  de Martim; o cime de Irapu e
a presena de Poti, precipitam tudo; Poti e Martim devem partir para a terra
dos potiguaras; Iracema os conduz, como uma companheira de viajem. A esposa de
Martim abandona tudo, o lar a famlia, os irmos, tudo para ir perecer ou ser
feliz com o esposo. No  o exlio, para ela o exlio seria ficar ausente do esposo,
no meio dos seus. Todavia, essa resoluo suprema custa-lhe sempre, no
arrependimento, mas tristeza e vergonha, no dia em que aps uma batalha entre
as duas naes rivais, Iracema v o cho coalhado de sangue dos seus irmos. Se
esse espetculo no a comovesse, ia-se a simpatia que ela nos inspira; mas o
autor teve em conta que era preciso interess-la, pelo contraste da voz do
sangue e da voz do corao.

Da em diante a vida de Iracema  uma sucesso de
delcias, at que uma circunstncia fatal vem pr termo aos seus jovens anos. A
esposa de Martim concebe um filho. Que doce alegria no banha a fronte da jovem
me! Iracema vai dar conta a Martim daquela boa nova; h uma cena igual nos Natchez;
seja-nos lcito compar-la  do poeta brasileiro.

Quando Ren, diz o poeta dos Natchez, teve
certeza de que Celuta trazia um filho no seio, acercou-se dela com santo
respeito, e abraou-a delicadamente para no machuc-la. 'Esposa, disse
ele, o cu abenoou as tuas entranhas.'

A cena  bela, decerto;  Chateaubriand quem fala;
mas a cena de Iracema aos nossos olhos  mais feliz. A selvagem cearense
aparece aos olhos de Martim, adornada de flores de maniva, trava da mo dele, e
diz-lhe:

 Teu sangue j vive no seio de Iracema. Ela ser
me de teu filho.

 Filho, dizes tu? exclamou o cristo em jbilo.

Ajoelhou ali, e cingindo-a com os braos, beijou o
ventre fecundo da esposa.

V-se a beleza deste movimento, no meio da natureza
viva, diante de uma filha da floresta. O autor conhece os segredos de despertar
a nossa comoo por estes meios simples, naturais, e belos. Que melhor adorao
queria a maternidade feliz, do que aquele beijo casto e eloqente? Mas tudo
passa; Martim sente-se tomado de nostalgia; lembram-lhe os seus e a ptria; a
selvagem do Cear, como a selvagem da Luisiana, comea ento a sentir a sua
perdida felicidade. Nada mais tocante do que essa longa saudade, chorada no
ermo, pela filha de Araken, me desgraada, esposa infeliz que viu um dia
partir o esposo, e s chegou a v-lo de novo, quando a morte j voltava para
ela os seus olhos lnguidos e tristes.

Poucas so as personagens que compem este drama da
solido, mas os sentimentos que as movem, a ao que se desenvolve entre elas,
 cheia de vida, de interesse, e de verdade.

Araken  a solenidade da velhice contrastando com a
beleza agreste de Iracema: um patriarca do deserto, ensinando aos moos os
conselhos da prudncia e da sabedoria. Quando lrapu, ardendo em cime pela
filha do paj, faz romper os seus dios contra os potiguaras, cujo aliado era
Martim, Araken ope-lhe a serenidade da palavra, a calma da razo. Irapu e os
episdios da guerra fazem destaque no meio do quadro sentimental que  o fundo
do livro; so captulos traados com muito vigor, o que d novo realce ao
robusto talento do poeta.



Irapu  o cime e o valor marcial; Araken a
austera sabedoria dos anos; Iracema o amor. No meio destes caracteres distintos
e animados, a amizade  simbolizada em Poti. Entre os indgenas a amizade no era este sentimento, que  fora de civilizar-se, tornou-se raro; nascia da
simpatia das almas, avivava-se com o perigo, repousava na abnegao recproca;
Poti e Martim, so os dois amigos da lenda, votados  mtua estima e ao mtuo
sacrifcio.

A aliana os uniu; o contacto fundiu-lhes as almas;
todavia, a afeio de Poti difere da de Martim, como o estado selvagem do
estado civilizado; sem deixarem de ser igualmente amigos, h em cada um deles
um trao caracterstico que corresponde  origem de ambos; a afeio de Poti
tem a expresso ingnua, franca, decidida; Martim no sabe ter aquela
simplicidade selvagem.



Martim e Poti sobrevivem  catstrofe de Iracema,
depois de enterr-la ao p de um coqueiro; o pai desventurado toma o filho
rfo de me, e arreda-se da praia cearense. Umedecem-se os olhos ante este
desenlace triste e doloroso, e fecha-se o livro, dominado ainda por uma
profunda impresso.

Contar todos os episdios desta lenda interessante
seria tentar um resumo impossvel; basta-nos afirmar que os h, em grande
nmero, traados por mo hbil, e todos ligados ao assunto principal. O mesmo
diremos de alguns personagens secundrios, como Caubi e Andira, um, jovem
guerreiro, outro, guerreiro ancio, modelados pelo mesmo padro a que devemos
Poti e Araken.

O estilo do livro e como a linguagem daqueles
povos: imagens e idias, agrestes e pitorescas, respirando ainda as auras da
montanha, cintilam nas cento e cinqenta pginas da Iracema. H, sem
dvida, superabundncia de imagens, e o autor com uma rara conscincia
literria,  o primeiro a reconhecer esse defeito. O autor emendar, sem dvida
a obra, empregando neste ponto uma conveniente sobriedade. O excesso, porm, se
pede a reviso da obra, prova em favor da poesia americana, confirmando ao
mesmo tempo o talento original e fecundo do autor. Do valor das imagens e das
comparaes, s se pode julgar lendo o livro, e para ele enviamos os leitores
estudiosos.

Tal  o livro do Sr.
Jos de Alencar, fruto do estudo, e da meditao, escrito com sentimento e
conscincia. Quem o ler uma vez, voltar muitas mais a ele, para ouvir em
linguagem animada e sentida, a histria melanclica da virgem dos lbios de
mel. H de viver este livro, tem em si as foras que resistem ao tempo, e
do plena fiana do futuro.  tambm um modelo para o cultivo da poesia
americana, que, merc de Deus h de avigorar-se com obras de to superior
quilate. Que o autor de Iracema no esmorea, mesmo a despeito da indiferena
pblica; o seu nome literrio escreve-se hoje com letras cintilantes: Me,
O Guarani, Diva, Lucola, e tantas outras; o Brasil tem o
direito de pedir-lhe que Iracema no seja o ponto final. Espera-se dele
outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, sem curar de saber se 
antes uma lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe- obra-prima.
