Conto, Orai por ele!, 1895

Orai por ele!

(Fragmento de narrativa)

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Almanaque
da Gazeta de Notcias, de 1895.

 No, isso no; os discursos eram
dele mesmo. Nem era possvel que no fossem. Como se h de levar de cor um
discurso, para uma assemblia de acionistas, em que tantos falam e sem ordem?

 Voc est enganado. O comendador
proferia discursos muito bem dispostos, no respondia aos apartes que, s
vezes, destruam um argumento, e no replicava nunca a outro orador. Quando era
o primeiro que falava, podia disfarar um pouco; mas quando era o segundo ou
terceiro,  que se via bem. Por isso empenhava-se sempre em falar antes de
todos.

 Pois olhe, no me parecia... Ele
era entendido em negcios.

 Era, isso era, mas decorava os
discursos.

O carro chegou  Praia de
Botafogo, voltando do cemitrio. Pedro e Paulo tinham ido enterrar o
comendador, que falecera na vspera, de um tifo. Vieram calados, a princpio, depois
falaram das novas casas do bairro, afinal caiu a conversa no defunto, a
propsito de uma casa que ele vendera trs meses antes. Paulo dizia que a casa
fora mal vendida. Pedro ponderou que os dinheiros mal ganhos no aproveitavam
aos donos. Ao que Paulo redargiu que no, que o comendador era homem honesto,
posto que burro.

 Burro no digo, replicou Pedro;
era finrio e grande finrio.

 Um homem pode ser finrio e
besta, explicou Paulo. Tinha faro e prtica, mas era incapaz de distinguir uma
idia de outra. Olhe, nas assemblias de acionistas...

Foi assim que falaram dos
discursos do comendador, dizendo Paulo que eram decorados, e concluindo por
afirmar que conhecia o autor deles; era o advogado do Banco Econmico.

 Realmente, tinham muita citao
de leis, concordou Pedro; um deles chegou a trazer uma citao em latim, mas
ento foi caoada do advogado.

 No; foi naturalmente pedido do
prprio comendador, que era dado a latinrios. Mas eu mesmo aturei alguns
discursos dele em casa, eu e a mulher, na vspera das assemblias. Comeava
dizendo que me queria consultar sobre a ordem das idias. Mas ligava duas
palavras, e fingindo que improvisava, proferia o discurso todo: era para ver o
efeito. Da primeira vez como os jornais deram o discurso, disse-me ele: Foi
bom que falssemos anteontem do negcio, assentei as idias, e voc viu que o
discurso saiu quase igual. Quase igual!

Riam ambos, a praia estava bonita,
conversaram dela alguns minutos, mas tornaram logo ao finado, cuja vida foi
longamente analisada. Pedro insistia em no admitir que ele fosse honesto;
Paulo dizia que sim, que nesse particular no havia que dizer. No seria homem
de sacrificar-se,  verdade...

 Nem beneficiar aos outros,
acudiu Pedro. Sabe o que me fez, no?

Paulo respondeu que sim; nem por
isso evitou que Pedro lhe contasse a grande mgoa que tinha do defunto. Quando
ia a estabelecer-se pela primeira vez, h dez anos, pediu de emprstimo ao
comendador quinze contos, para pagar em dois anos, com juro de oito por cento.
Pois o comendador, que alis acabava de assinar dez contos para as festas do
Paraguai, negou-lhe o pedido.

 Talvez no pudesse na ocasio...

 Qual no pudesse! Era sovina.
Ficamos brigados por algum tempo; depois, quando eu j estava estabelecido, foi
ele mesmo que me procurou para uma companhia... Fizemos as pazes, mas eu sempre
lhe disse umas duas palavras, que ele ficou amarelo.

Paulo tirou a conversao desse
terreno, falando nas manias do comendador que eram muitas; depois contaram
anedotas, ditos ridculos, erros de prosdia, pacholices. Paulo referiu que o
finado, depois de ler um romance de Dumas, passado na Corte de Frana, comeou
a beijar a mo  mulher, quando entrava ou saa de casa. A mulher  que no
esteve pelos autos, e o costume durou cinco dias. Pedro piscou o olho e sorriu.

 Era um tolo, concordou.

 Quando andava, voc no reparou
que ele, quando andava, tinha uns ares adamados? continuou Paulo, e recordou
que era vaidoso at das barbas; nunca estava ao p da gente que no as puxasse
muito, olhando para elas, como se procurasse um argueiro, mas era para que
vissem que eram finas e luzidias.

 E msica? acudiu Pedro. Tinha a
mania de entender de msica, de julgar artistas. Na praa, em chegando
companhia lrica, era o assunto predileto dele. Tomava assinatura no teatro
lrico, para fazer crer que era doido por msica, mas eu aposto que nem
gostava.

 No, l gostar, gostava.

 Gostava, mas fingia gostar mais.

 Isso sim.

Vieram os sestros do comendador.
Paulo no podia suportar o costume que o finado tinha de fazer uma cruz na
boca, com o polegar, quando bocejava; nem o de palitar os dentes com a lngua.
Pedro no conhecia muitos, era menos assduo na casa que Paulo.

 Voc, sim, ia l todas as
noites. Jogavam o voltarete sempre?

 Algumas vezes; mas logo que
chegava terceiro parceiro, eu deixava as cartas. No gosto de cartas.

 A mulher tambm jogava?

 D. Josefina? Qual!

 Jogava a bisca de dois com voc,
naturalmente.

 A bisca? repetiu Paulo enfiado.

 Deixe-se de partes; toda a gente
sabe disso.
