Conto, O imortal, 1882

O imortal

Texto-fonte:

 Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/07 a 15/09/1882.

CAPTULO
PRIMEIRO

-- Meu pai nasceu em 1600...

-- Perdo, em 1800,
naturalmente...

-- No, senhor,
replicou o Dr. Leo, de um modo grave e triste; foi em 1600.

Estupefao dos
ouvintes, que eram dois, o Coronel Bertioga, e o tabelio da vila,
Joo Linhares. A vila era na provncia fluminense; suponhamos
Itabora ou Sapucaia. Quanto  data, no tenho
dvida em dizer que foi no ano de 1855, uma noite de novembro, escura
como breu, quente como um forno, passante de nove horas. Tudo silncio. O
lugar em que os trs estavam era a varanda que dava para o terreiro. Um
lampio de luz frouxa, pendurado de um prego, sublinhava a
escurido exterior. De quando em quando, gania um seco e spero
vento, mesclando-se ao som montono de uma cachoeira prxima. Tal
era o quadro e o momento, quando o Dr. Leo insistiu nas primeiras
palavras da narrativa.

-- No, senhor; nasceu
em 1600.

Mdico homeopata, -- a
homeopatia comeava a entrar nos domnios da nossa
civilizao, -- este Dr. Leo chegara  vila,
dez ou doze dias antes, provido de boas cartas de recomendao,
pessoais e polticas. Era um homem inteligente, de fino trato e
corao benigno. A gente da vila notou-lhe certa tristeza no
gesto, algum retraimento nos hbitos, e at uma tal ou qual
sequido de palavras, sem embargo da perfeita cortesia; mas tudo foi
atribudo ao acanho dos primeiros dias e s saudades da Corte.
Contava trinta anos, tinha um princpio de calva, olhar bao e
mos episcopais. Andava propagando o novo sistema.

Os dois ouvintes continuavam pasmados.
A dvida fora posta pelo dono da casa, o Coronel Bertioga, e o
tabelio ainda insistiu no caso, mostrando ao mdico a
impossibilidade de ter o pai nascido em 1600. Duzentos e cinqenta e cinco
anos antes! dois sculos e meio! Era impossvel. Ento, que
idade tinha ele? e de que idade morreu o pai?

-- No tenho interesse
em contar-lhes a vida de meu pai, respondeu o Dr. Leo. Falaram-me no
macrbio que mora nos fundos da matriz; disse-lhes que, em
negcio de macrbios, conheci o que h mais espantoso no
mundo, um homem imortal...

-- Mas seu pai no
morreu? disse o coronel.

-- Morreu.

-- Logo, no era
imortal, concluiu o tabelio triunfante. Imortal se diz quando uma
pessoa no morre, mas seu pai morreu.

-- Querem ouvir-me?

-- Homem, pode ser, observou o
coronel meio abalado. O melhor  ouvir a histria. S o
que digo  que mais velho do que o Capataz nunca vi ningum.
Est mesmo caindo de maduro. Seu pai devia estar tambm muito
velho...?

-- To moo
como eu. Mas para que me fazem perguntas soltas? Para se espantarem cada vez
mais, porque na verdade a histria de meu pai no 
fcil de crer. Posso cont-la em poucos minutos.

Excitada a curiosidade, no
foi difcil impor-lhes silncio. A famlia toda estava
acomodada, os trs eram ss na varanda, o dr. Leo contou
enfim a vida do pai, nos termos em que o leitor vai ver, se se der o trabalho
de ler o segundo e os outros captulos.

CAPTULO
II

-- Meu pai nasceu em 1600, na
cidade de Recife.

Aos vinte e cinco anos tomou o
hbito franciscano, por vontade de minha av, que era
profundamente religiosa. Tanto ela como o marido eram pessoas de bom
nascimento, -- "bom sangue", como dizia meu pai, afetando a
linguagem antiga.

Meu av descendia da nobreza
de Espanha, e minha av era de uma grande casa do Alentejo. Casaram-se
ainda na Europa, e, anos depois, por motivos que no vm ao caso
dizer, transportaram-se ao Brasil, onde ficaram e morreram. Meu pai dizia que
poucas mulheres tinha visto to bonitas como minha av. E olhem
que ele amou as mais esplndidas mulheres do mundo. Mas no
antecipemos.

Tomou meu pai o hbito, no
convento de Iguarau, onde ficou at 1639, ano em que os
holandeses, ainda uma vez, assaltaram a povoao. Os frades
deixaram precipitadamente o convento; meu pai, mais remisso do que os outros
(ou j com o intento de deitar o hbito s urtigas),
deixou-se ficar na cela, de maneira que os holandeses o foram achar no momento
em que recolhia alguns livros pios e objetos de uso pessoal. Os holandeses
no o trataram mal. Ele os regalou com o melhor da ucharia franciscana,
onde a pobreza  de regra. Sendo uso daqueles frades alternarem-se no
servio da cozinha, meu pai entendia da arte, e esse talento foi mais um
encanto ao aparecer do inimigo.

No fim de duas semanas, o oficial
holands ofereceu-lhe um salvo-conduto, para ir aonde lhe parecesse; mas
meu pai no o aceitou logo, querendo primeiro considerar se devia ficar
com os holandeses, e,  sombra deles desamparar a Ordem, ou se lhe era
melhor buscar vida por si mesmo. Adotou o segundo alvitre, no s
por ter o esprito aventureiro, curioso e audaz, como porque era
patriota, e bom catlico, apesar da repugnncia  vida
monstica, e no quisera misturar-se com o herege invasor.
Aceitou o salvo-conduto e deixou Iguarau.

No se lembrava ele, quando
me contou essas coisas, no se lembrava mais do nmero de dias
que despendeu sozinho por lugares ermos, fugindo de propsito ao
povoado, no querendo ir a Olinda ou Recife, onde estavam os holandeses.
Comidas as provises que levava, ficou dependente de alguma caa
silvestre e frutas. Deitara, com efeito, o hbito s urtigas;
vestia uns cales flamengos, que o oficial lhe dera, e uma
camisola ou jaqueto de couro. Para encurtar razes, foi ter a
uma aldeia de gentio, que o recebeu muito bem, com grandes carinhos e
obsquios. Meu pai era talvez o mais insinuante dos homens. Os
ndios ficaram embeiados por ele, mormente o chefe, um guerreiro
velho, bravo e generoso, que chegou a dar-lhe a filha em casamento. J ento minha av era morta, e meu av desterrado para
a Holanda, notcias que meu pai teve, casualmente, por um antigo servo
da casa. Deixou-se estar, pois, na aldeia, o gentio, at o ano de 1642,
em que o guerreiro faleceu. Este caso do falecimento  que 
maravilhoso: peo-lhes a maior ateno.

O coronel e o tabelio
aguaram os ouvidos, enquanto o Dr. Leo extraa
pausadamente uma pitada e inseria-a no nariz, com a pachorra de quem
est negaceando uma coisa extraordinria.

CAPTULO
III

Uma noite, o chefe
indgena, -- chamava-se Piraju, -- foi  rede
de meu pai, anunciou-lhe que tinha de morrer, pouco depois de nascer o sol, e
que ele estivesse pronto para acompanh-lo fora, antes do momento
ltimo. Meu pai ficou alvoroado, no por lhe dar
crdito, mas por sup-lo delirante. Sobre amadrugada, o sogro veio
ter com ele.

-- Vamos, disse-lhe.

-- No, agora
no: ests fraco, muito fraco...

-- Vamos! repetiu o
guerreiro.

E,  luz de uma fogueira
expirante, viu-lhe meu pai a expresso intimativa do rosto, e um certo
ar diablico, em todo caso extraordinrio, que o aterrou.
Levantou-se, acompanhou-o na direo de um crrego.
Chegando ao crrego, seguiram pela margem esquerda, acima, durante um
tempo que meu pai calculou ter sido um quarto de hora. A madrugada
acentuava-se; a lua fugia diante dos primeiros anncios do sol. Contudo,
e apesar da vida do serto que meu pai levava desde alguns tempos, a
aventura assustava-o; seguia vigiando o sogro, com receio de alguma
traio. Piraju ia calado, com os olhos no cho, e
a fronte carregada de pensamentos, que podiam ser cruis ou somente
tristes. E andaram, andaram, at que Piraju disse:

-- Aqui.

Estavam diante de trs
pedras, dispostas em tringulo. Piraju sentou-se numa, meu pai noutra. Depois de alguns minutos de descanso:

-- Arreda aquela pedra, disse
o guerreiro, apontando para a terceira, que era a maior.

Meu pai levantou-se e foi 
pedra. Era pesada, resistiu ao primeiro impulso; mas meu pai teimou, aplicou
todas as foras, a pedra cedeu um pouco, depois mais, enfim foi removida
do lugar.

-- Cava o cho, disse
o guerreiro.

Meu pai foi buscar uma lasca de
pau, uma taquara ou no sei que, e comeou a cavar o cho.
J ento estava curioso de ver o que era. Tinha-lhe nascido uma
idia, -- algum tesouro enterrado, que o guerreiro, receoso de
morrer, quisesse entregar-lhe. Cavou, cavou, cavou, at que sentiu um
objeto rijo; era um vaso tosco, talvez uma igaaba. No o tirou,
no chegou mesmo a arredar a terra em volta dele. O guerreiro
aproximou-se, desatou o pedao de couro de anta que lhe cobria a boca,
meteu dentro o brao, e tirou um boio. Este boio tinha a
boca tapada com outro pedao de couro.

-- Vem c, disse o
guerreiro.

Sentaram-se outra vez. O guerreiro
tinha o boio sobre os joelhos, tapado, misterioso, aguando a
curiosidade de meu pai, que ardia por saber o que havia ali dentro.

-- Piraju vai morrer,
disse ele; vai morrer para nunca mais. Piraju ama guerreiro branco,
esposo de Maracuj, sua filha; e vai mostrar um segredo como no
h outro.

Meu pai estava trmulo. O
guerreiro desatou lentamente o couro que tapava o boio. Destapado,
olhou para dentro, levantou-se, e veio mostr-lo a meu pai. Era um
lquido amarelado, de um cheiro acre e singular.

-- Quem bebe isto, um gole
s, nunca mais morre.

-- Oh! bebe, bebe! exclamou
meu pai com vivacidade.

Foi um movimento de afeto, um ato
irrefletido de verdadeira amizade filial, porque s um instante depois
 que meu pai advertiu que no tinha, para crer na notcia
que o sogro lhe dava, seno a palavra do mesmo sogro, cuja razo
supunha perturbada pela molstia. Piraju sentiu o
espontneo da palavra de meu pai, e agradeceu-lha; mas abanou a
cabea.

-- No, disse ele;
Piraju no bebe, Piraju quer morrer. Est
cansado, viu muita lua, muita lua. Piraju quer descansar na terra,
est aborrecido. Mas Piraju quer deixar este segredo a guerreiro
branco; est aqui; foi feito por um velho paj de longe, muito
longe... Guerreiro branco bebe, no morre mais.

Dizendo isto, tornou a tapar a
boca do boio, e foi met-lo outra vez dentro da igaaba.
Meu pai fechou depois a boca da mesma igaaba, e reps a pedra em cima. O primeiro claro do sol vinha apontando. Voltaram para casa depressa; antes
mesmo de tomar a rede, Piraju faleceu.

Meu pai no acreditou na
virtude do elixir. Era absurdo supor que um tal lquido pudesse abrir
uma exceo na lei da morte. Era naturalmente algum
remdio, se no fosse algum veneno; e neste caso, a mentira do
ndio estava explicada pela turvao mental que meu pai
lhe atribuiu. Mas, apesar de tudo, nada disse aos demais ndios da
aldeia, nem  prpria esposa. Calou-se; -- nunca me revelou
o motivo do silncio: creio que no podia ser outro seno o
prprio influxo do mistrio.

Tempos depois, adoeceu, e
to gravemente que foi dado por perdido. O curandeiro do lugar anunciou
a Maracuj que ia ficar viva. Meu pai no ouviu a
notcia, mas leu-a em uma pgina de lgrimas, no rosto da
consorte, e sentiu em si mesmo que estava acabado. Era forte, valoroso, capaz
de encarar todos os perigos; no se aterrou, pois, com a idia de
morrer, despediu-se dos vivos, fez algumas recomendaes e
preparou-se para a grande viagem.

Alta noite, lembrou-se do elixir,
e perguntou a si mesmo se no era acertado tent-lo. J
agora a morte era certa, que perderia ele com a experincia? A
cincia de um sculo no sabia tudo; outro sculo
vem e passa adiante. Quem sabe, dizia ele consigo, se os homens no
descobriro um dia a imortalidade, e se o elixir cientfico
no ser esta mesma droga selvtica? O primeiro que curou
a febre maligna fez um prodgio. Tudo  incrvel antes de
divulgado. E, pensando assim, resolveu transportar-se ao lugar da pedra,
 margem do arroio; mas no quis ir de dia, com medo de ser
visto. De noite, ergueu-se, e foi, trpego, vacilante, batendo o queixo.
Chegou  pedra, arredou-a, tirou o boio, e bebeu metade do
contedo. Depois sentou-se para descansar. Ou o descanso, ou o
remdio, alentou-o logo. Ele tornou a guardar o boio; da
a meia hora estava outra vez na rede. Na seguinte manh estava bom...

-- Bom de todo? perguntou o
tabelio Joo Linhares, interrompendo o narrador.

-- De todo.

-- Era algum remdio
para febre...

-- Foi isto mesmo o que ele
pensou, quando se viu bom. Era algum remdio para febre e outras
doenas; e nisto ficou; mas, apesar do efeito da droga, no a
descobriu a ningum. Entretanto, os anos passaram, sem que meu pai
envelhecesse; qual era no tempo da molstia, tal ficou. Nenhuma ruga,
nenhum cabelo branco. Moo, perpetuamente moo. A vida do mato
comeara a aborrec-lo; ficara ali por gratido ao sogro;
as saudades da civilizao vieram tom-lo. Um dia, a
aldeia foi invadida por uma horda de ndios de outra, no se sabe
por que motivo, nem importa ao nosso caso. Na luta pereceram muitos, meu pai foi
ferido, e fugiu para o mato. No dia seguinte veio  aldeia, achou a
mulher morta. As feridas eram profundas; curou-as com o emprego de
remdios usuais; e restabeleceu-se dentro de poucos dias. Mas os
sucessos confirmaram-no no propsito de deixar a vida semi-selvagem e
tornar  vida civilizada e crist. Muitos anos se tinham passado
depois da fuga do convento de Iguarau; ningum mais o
reconheceria. Um dia de manh deixou a aldeia, com o pretexto de ir
caar; foi primeiro ao arroio, desviou a pedra, abriu a igaaba,
tirou o boio, onde deixara um resto do elixir. A idia dele era
fazer analisar a droga na Europa, ou mesmo em Olinda ou no Recife, ou na Bahia,
por algum entendido em coisas de qumica e farmcia. Ao mesmo
tempo no podia furtar-se a um sentimento de gratido; devia
quele remdio a sade. Com o boio ao lado, a
mocidade nas pernas e a resoluo no peito, saiu dali, caminho de
Olinda e da eternidade.

CAPTULO
IV

-- No posso
demorar-me em pormenores, disse o Dr. Leo aceitando o caf que o
coronel mandara trazer. So quase dez horas...

-- Que tem? perguntou o
coronel. A noite  nossa; e, para o que temos de fazer amanh,
podemos dormir quando bem nos parecer. Eu por mim no tenho sono. E
voc, Sr. Joo Linhares?

-- Nem um pingo, respondeu o
tabelio.

E teimou com o Dr. Leo
para contar tudo, acrescentando que nunca ouvira nada to
extraordinrio. Note-se que o tabelio presumia ser lido em
histrias antigas, e passava na vila por um dos homens mais ilustrados
do Imprio; no obstante, estava pasmado. Ele contou ali mesmo,
entre dois goles de caf, o caso de Matusalm, que viveu
novecentos e sessenta e nove anos, e o de Lameque que morreu com setecentos e
setenta e sete; mas, explicou logo, porque era um esprito forte, que
esses e outros exemplos da cronologia hebraica no tinham fundamento
cientfico...

-- Vamos, vamos ver agora o
que aconteceu a seu pai, interrompeu o coronel.

O vento, de esfalfado, morrera; e
a chuva comeava a rufar nas folhas das rvores, a
princpio com intermitncias, depois mais contnua e basta.
A noite refrescou um pouco. O Dr. Leo continuou a
narrao, e, apesar de dizer que no podia demorar-se nos
pormenores, contou-os com tanta miudeza, que no me atrevo a
p-los tais quais nestas pginas; seria fastidioso. O melhor
 resumi-lo.

Rui de Leo, ou antes Rui
Garcia de Meireles e Castro Azevedo de Leo, que assim se chamava o pai
do mdico, pouco tempo se demorou em Pernambuco. Um ano depois, em 1654, cessava o domnio holands. Rui de
Leo assistiu s alegrias da vitria, e passou-se ao reino,
onde casou com uma senhora nobre de Lisboa. Teve um filho; e perdeu o filho e a
mulher no mesmo ms de maro de 1661. A dor que ento padeceu foi profunda; para distrair-se visitou a Frana e a
Holanda. Mas na Holanda, ou por motivo de uns amores secretos, ou por
dio de alguns judeus descendentes ou naturais de Portugal, com quem
entreteve relaes comerciais na Haia, ou enfim por outros
motivos desconhecidos, Rui de Leo no pde viver
tranqilo muito tempo; foi preso e conduzido para a Alemanha, de onde
passou  Hungria, a algumas cidades italianas,  Frana, e
finalmente  Inglaterra. Na Inglaterra estudou o ingls
profundamente; e, como sabia o latim, aprendido no convento, o hebraico, que
lhe ensinara na Haia o famoso Spinoza, de quem foi amigo, e que talvez deu
causa ao dio que os outros judeus lhe criaram; -- o francs
e o italiano, parte do alemo e do hngaro, tornou-se em Londres
objeto de verdadeira curiosidade e venerao. Era buscado,
consultado, ouvido, no s por pessoas do vulgo ou idiotas, como
por letrados, polticos e personagens da Corte.

Convm dizer que em todos
os pases por onde andara tinha ele exercido os mais contrrios
ofcios: soldado, advogado, sacristo, mestre de dana,
comerciante e livreiro. Chegou a ser agente secreto da ustria, guarda
pontifcio e armador de navios. Era ativo, engenhoso, mas pouco
persistente, a julgar pela variedade das coisas que empreendeu; ele,
porm, dizia que no, que a sorte  que sempre lhe foi
adversa. Em Londres, onde o vemos agora, limitou-se ao mister de letrado e
gamenho; mas no tardou que voltasse a Haia, onde o esperavam alguns dos
amores velhos, e no poucos recentes.

Que o amor, fora 
diz-lo, foi uma das causas da vida agitada e turbulenta do nosso
heri. Ele era pessoalmente um homem galhardo, insinuante, dotado de um
olhar cheio de fora e magia. Segundo ele mesmo contou ao filho, deixou
muito longe o algarismo dom-juanesco das mille e tre. No
podia dizer o nmero exato das mulheres a quem amara, em todas as
latitudes e lnguas, desde a selvagem Maracuj de Pernambuco,
at  bela cipriota ou  fidalga dos sales de
Paris e Londres; mas calculava em no menos de cinco mil mulheres.
Imagina-se facilmente que uma tal multido devia conter todos os
gneros possveis da beleza feminil: loiras, morenas,
plidas, coradas, altas, mes, baixinhas, magras ou cheias,
ardentes ou lnguidas, ambiciosas, devotas, lascivas, poticas,
prosaicas, inteligentes, estpidas; -- sim, tambm estpidas,
e era opinio dele que a estupidez das mulheres tinha o sexo feminino,
era graciosa, ao contrrio da dos homens, que participava da aspereza
viril.

-- H casos, dizia
ele, em que uma mulher estpida tem o seu lugar.

Na Haia, entre os novos amores,
deparou-se-lhe um que o prendeu por longo tempo: lady Emma Sterling,
senhora inglesa, ou antes escocesa, pois descendia de uma famlia de
Dublin. Era formosa, resoluta, e audaz; -- to audaz que chegou a
propor ao amante uma expedio a Pernambuco para conquistar a
capitania, e aclamarem-se reis do novo Estado. Tinha dinheiro, podia levantar
muito mais, chegou mesmo a sondar alguns armadores e comerciantes, e antigos
militares que ardiam por uma desforra. Rui de Leo ficou aterrado com a
proposta da amante, e no lhe deu crdito; mas lady Ema
insistiu e mostrou-se to de rocha, que ele reconheceu enfim achar-se
diante de uma ambiciosa verdadeira. Era, todavia, homem de senso; viu que a
empresa, por mais bem organizada que fosse, no passaria de tentativa
desgraada; disse-lho a ela; mostrou-lhe que, se a Holanda inteira tinha
recuado, no era fcil que um particular chegasse a obter ali
domnio seguro, nem ainda instantneo. Lady Ema abriu
mo do plano, mas no perdeu a idia de o exalar a
alguma grande situao.

-- Tu sers rei ou
duque...

-- Ou cardeal, acrescentava
ele rindo.

-- Por que no
cardeal?

Lady Ema fez com que Rui de
Leo entrasse da a pouco na conspirao que deu em
resultado a invaso da Inglaterra, a guerra civil, e a morte enfim dos
principais cabos da rebelio. Vencida esta, lady Ema no
deu por vencida. Ocorreu-lhe ento uma idia espantosa. Rui de
Leo inculcava ser o prprio pai do duque de Monmouth, suposto
filho natural de Carlos II, e caudilho principal dos rebeldes. A verdade
 que eram parecidos como duas gotas d'gua. Outra verdade
 que lady Ema, por ocasio da guerra civil, tinha o plano
secreto de fazer matar o duque, se ele triunfasse, e substitu-lo pelo
amante, que assim subiria ao trono de Inglaterra. O pernambucano, escusado
 diz-lo, no soube de semelhante aleivosia, nem lhe daria
o seu assentimento. Entrou na rebelio, viu-a perecer ao sangue e no
suplcio, e tratou de esconder-se. Ema acompanhou-o; e, como a
esperana do cetro no lhe saa do corao,
passado algum tempo fez correr que o duque no morrera, mas sim um amigo
to parecido com ele, e to dedicado, que o substituiu no
suplcio.

-- O duque est vivo,
e dentro de pouco aparecer ao nobre povo da Gr-Bretanha,
sussurrava ela aos ouvidos.

Quando Rui de Leo
efetivamente apareceu, a estupefao foi grande, o entusiasmo
reviveu, o amor deu alma a uma causa, que o carrasco supunha ter acabado na
Torre de Londres. Donativos, presentes, armas, defensores, tudo veio s
mos do audaz pernambucano, aclamado rei, e rodeado logo de um
troo de vares resolutos a morrer pela mesma causa.

-- Meu filho, -- disse
ele, sculo e meio depois, ao mdico homeopata, -- dependeu
de muito pouco no teres nascido prncipe de Gales... Cheguei a
dominar cidades e vilas, expedi leis, nomeei ministros, e, ainda assim, resisti
a duas ou trs sedies militares que pediam a queda dos
dois ltimos gabinetes. Tenho para mim que as dissenses internas
ajudaram as foras legais, e devo-lhes a minha derrota. Ao cabo,
no me zanguei com elas; a luta fatigara-me; no minto dizendo
que o dia da minha captura foi para mim de alvio. Tinha visto,
alm da primeira, duas guerras civis, uma dentro da outra, uma cruel,
outra ridcula, ambas insensatas. Por outro lado, vivera muito, e uma
vez que me no executassem, que me deixassem preso ou me exilassem para os
confins da terra, no pedia nada mais aos homens, ao menos durante
alguns sculos... Fui preso, julgado e condenado  morte. Dos
meus auxiliares no poucos negaram tudo; creio mesmo que um dos
principais morreu na Cmara dos Lords. Tamanha ingratido
foi um princpio de suplcio. Ema, no; essa nobre senhora
no me abandonou; foi presa, condenada, e perdoada; mas no me
abandonou. Na vspera de minha execuo, veio ter comigo,
e passamos juntos as ltimas horas. Disse-lhe que no me
esquecesse, dei-lhe uma trana de cabelos, pedi-lhe que perdoasse ao
carrasco... Ema prorrompeu em soluos; os guardas vieram
busc-la. Ficando s, recapitulei a minha vida, desde
Iguarau at a Torre de Londres. Estvamos ento em
1686; tinha eu oitenta e seis anos, sem parecer mais de quarenta. A
aparncia era a da eterna juventude; mas o carrasco ia destru-la
num instante. No valia a pena ter bebido metade do elixir e guardado
comigo o misterioso boio, para acabar tragicamente no cepo do cadafalso...
Tais foram as minhas idias naquela noite. De manh preparei-me
para a morte. Veio o padre, vieram os soldados, e o carrasco. Obedeci
maquinalmente. Caminhamos todos, subi ao cadafalso, no fiz discurso;
inclinei o pescoo sobre o cepo, o carrasco deixou cair a arma, senti
uma dor penetrante, uma angstia enorme, como que a parada sbita
do corao; mas essa sensao foi to grande
como rpida; no instante seguinte tornara ao estado natural. Tinha no
pescoo algum sangue, mas pouco e quase seco. O carrasco recuou, o povo
bramiu que me matassem. Inclinaram-me a cabea, e o carrasco, fazendo
apelo a todos os seus msculos e princpios, descarregou outro
golpe, e maior, se  possvel, capaz de abrir-me ao mesmo tempo a
sepultura, como j se disse de um valente. A minha
sensao foi igual  primeira na intensidade e na
brevidade; reergui a cabea. Nem o magistrado nem o padre consentiram
que se desse outro golpe. O povo abalou-se, uns chamaram-me santo, outros
diabo, e ambas essas opinies eram defendidas nas tabernas 
fora de punho e de aguardente. Diabo ou santo, fui presente aos
mdicos da corte. Estes ouviram o depoimento do magistrado, do padre, do
carrasco, de alguns soldados, e concluram que, uma vez dado o golpe, os
tecidos do pescoo ligavam-se outra vez rapidamente, e assim os mesmos
ossos, e no chegavam a explicar um tal fenmeno. Pela minha
parte, em vez de contar o caso do elixir, calei-me; preferi aproveitar as
vantagens do mistrio. Sim, meu filho; no imaginas a
impresso de toda a Inglaterra, os bilhetes amorosos que recebi das mais
finas duquesas, os versos, as flores, os presentes, as metforas. Um
poeta chamou-me Anteu. Um jovem protestante demonstrou-me que eu era o mesmo
Cristo.

CAPTULO
V

O narrador continuou:

-- J vem, pelo
que lhes contei, que no acabaria hoje nem em toda esta semana, se
quisesse referir miudamente a vida inteira de meu pai. Algum dia o farei, mas
por escrito, e cuido que a obra dar cinco volumes, sem contar os
documentos...

-- Que documentos? perguntou
o tabelio.

-- Os muitos documentos
comprobatrios que possuo, ttulos, cartas, traslados de
sentenas, de escrituras, cpias de estatsticas... Por
exemplo, tenho uma certido do recenseamento de um certo bairro de
Gnova, onde meu pai morreu em 1742; traz o nome dele, com
declarao do lugar em que nasceu...

-- E com a verdadeira idade?
perguntou o coronel.

-- No. Meu pai andou
sempre entre os quarenta e os cinqenta. Chegando aos cinqenta,
cinqenta e poucos, voltava para trs; -- e era-lhe
fcil fazer isto, porque no esquentava lugar; vivia cinco, oito,
dez, doze anos numa cidade, e passava a outra... Pois tenho muitos documentos
que juntarei, entre outros, o testamento de lady Ema, que morreu pouco
depois da execuo gorada de meu pai. Meu pai dizia-me que entre
as muitas saudades que a vida lhe ia deixando, lady Ema era das mais
fortes e profundas. Nunca viu mulher mais sublime, nem amor mais constante, nem
dedicao mais cega. E a morte confirmou a vida, porque o
herdeiro de lady Ema foi meu pai. Infelizmente, a herana teve
outros reclamantes, e o testamento entrou em processo. Meu pai, no podendo residir em Inglaterra, concordou na proposta de um
amigo providencial que veio a Lisboa dizer-lhe que tudo estava perdido; quando
muito poderia salvar um restozinho de nada, e ofereceu-lhe por esse direito
problemtico uns dez mil cruzados. Meu pai aceitou-os; mas, to
caipora que o testamento foi aprovado, e a herana passou s
mos do comprador...

-- E seu pai ficou pobre...

-- Com os dez mil cruzados, e
pouco mais que apurou. Teve ento idia de meter-se no
negcio de escravos; obteve privilgio, armou um navio, e
transportou africanos para o Brasil. Foi a parte da vida que mais lhe custou;
mas afinal acostumou-se s tristes obrigaes de um navio
negreiro. Acostumou-se, e enfarou-se, que era outro fenmeno na vida
dele. Enfarava-se dos ofcios. As longas solides do mar
alargaram-lhe o vazio interior. Um dia refletiu, e perguntou a si mesmo, se
chegaria a habituar-se tanto  navegao, que tivesse de
varrer o oceano, por todos os sculos dos sculos. Criou medo; e
compreendeu que o melhor modo de atravessar a eternidade era vari-la...

-- Em que ano ia ele?

-- Em 1694; fins de 1694.

-- Veja s! Tinha
ento noventa e quatro anos, no era? Naturalmente,
moo...

-- To moo que
casou da a dois anos, na Bahia, com uma bela senhora que...

-- Diga.

-- Digo, sim; porque ele
mesmo me contou a histria. Uma senhora que amou a outro. E que outro!
Imaginem que meu pai, em 1695, entrou na conquista da famosa repblica
dos Palmares. Bateu-se como um bravo, e perdeu um amigo, um amigo
ntimo, crivado de balas, pelado...

-- Pelado?

--  verdade; os
negros defendiam-se tambm com gua fervendo, e este amigo
recebeu um pote cheio; ficou uma chaga. Meu pai contava-me esse episdio
com dor, e at com remorso, porque, no meio da refrega, teve de pisar o
pobre companheiro; parece at que ele expirou quando meu pai lhe metia
as botas na cara...

O tabelio fez uma careta;
e o coronel, para disfarar o horror, perguntou o que tinha a conquista
dos Palmares com a mulher que...

-- Tem tudo, continuou o
mdico. Meu pai, ao tempo que via morrer um amigo, salvara a vida de um
oficial, recebendo ele mesmo uma flecha no peito. O caso foi assim. Um dos
negros, depois de derrubar dois soldados, envergou o arco sobre a pessoa do
oficial, que era um rapaz valente e simptico, rfo de
pai, tendo deixado a me em Olinda... Meu pai compreendeu que a flecha no lhe faria mal a ele, e ento, de um salto, interps-se.
O golpe feriu-o no peito; ele caiu. O oficial, Damio... Damio
de tal. No digo o nome todo, porque ele tem alguns descendentes para as
bandas de Minas. Damio basta. Damio passou a noite ao p
da cama de meu pai, agradecido, dedicado, louvando-lhe uma ao
to sublime. E chorava. No podia suportar a idia de ver
morrer o homem que lhe salvara a vida por um modo to raro. Meu pai
sarou depressa, com pasmo de todos. A pobre me do oficial quis
beijar-lhe as mos: -- "Basta-me um prmio, disse ele;
a sua amizade e a do seu filho". O caso encheu de pasmo Olinda inteira.
No se falava em outra coisa; e da a algumas semanas a
admirao pblica trabalhava em fazer uma lenda. O
sacrifcio, como vem, era nenhum, pois meu pai no podia
morrer; mas o povo, que no sabia disso, buscou uma causa ao
sacrifcio, uma causa to grande como ele, e descobriu que o
Damio devia ser filho de meu pai, e naturalmente filho adltero.
Investigaram o passado da viva; acharam alguns recantos que se perdiam
na obscuridade. O rosto de meu pai entrou a parecer conhecido de alguns;
no faltou mesmo quem afirmasse ter ido a uma merenda, vinte anos antes,
em casa da viva, que era ento casada, e visto a meu
pai. Todas estas patranhas aborreceram tanto a meu pai, que ele determinou
passar  Bahia, onde casou...

-- Com a tal senhora?

-- Justamente... Casou com D.
Helena, bela como o sol, dizia ele. Um ano depois morria em Olinda a
viva, e o Damio vinha  Bahia trazer a meu pai uma
madeixa dos cabelos da me, e um colar que a moribunda pedia para ser
usado pela mulher dele. D. Helena soube do episdio da flecha, e
agradeceu a lembrana da morta. Damio quis voltar para Olinda;
meu pai disse-lhe que no, que fosse no ano seguinte. Damio ficou.
Trs meses depois uma paixo desordenada... Meu pai soube da
aleivosia de ambos, por um comensal da casa. Quis mat-los; mas o mesmo
que os denunciou avisou-os do perigo, e eles puderam evitar a morte. Meu pai
voltou o punhal contra si, e enterrou-o no corao.

"Filho, dizia-me ele, contando
o episdio; dei seis golpes, cada um dos quais bastava para matar um
homem, e no morri." Desesperado saiu de casa, e atirou-se ao mar.
O mar restituiu-o  terra. A morte no podia aceit-lo:
ele pertencia  vida por todos os sculos. No teve outro
recurso mais do que fugir; veio para o Sul, onde alguns anos depois, no
princpio do sculo passado, podemos ach-lo na descoberta
das minas. Era um modo de afogar o desespero, que era grande, pois amara muito
a mulher, como um louco...

-- E ela?

-- So contos largos,
e no me sobra tempo. Ela veio ao Rio de Janeiro, depois das duas
invases francesas; creio que em 1713. J ento meu pai
enriquecera com as minas, e residia na cidade fluminense, benquisto, com
idias at de ser nomeado governador. D. Helena apareceu-lhe,
acompanhada da me e de um tio. Me e tio vieram dizer-lhe que
era tempo de acabar com a situao em que meu pai tinha colocado
a mulher. A calnia pesara longamente sobre a vida da pobre senhora. Os
cabelos iam-lhe embranquecendo: no era s a idade que chegava,
eram principalmente os desgostos, as lgrimas. Mostraram-lhe uma carta
escrita pelo comensal denunciante, pedindo perdo a D. Helena da
calnia que lhe levantara e confessando que o fizera levado de uma
criminosa paixo. Meu pai era uma boa alma; aceitou a mulher, a sogra e
o tio. Os anos fizeram o seu ofcio; todos trs envelheceram,
menos meu pai. Helena ficou com a cabea toda branca; a me e o
tio voavam para a decrepitude; e nenhum deles tirava os olhos de meu pai,
espreitando as cs que no vinham, e as rugas ausentes. Um dia
meu pai ouviu-lhes dizer que ele devia ter parte com o diabo. To forte!
E acrescentava o tio: "De que serve o testamento, se temos de ir
antes?" Duas semanas depois morria o tio; a sogra acabou pateta,
da a um ano. Restava a mulher, que pouco mais durou.

-- O que me parece, aventurou
o coronel,  que eles vieram ao cheiro dos cobres...

-- Decerto.

-- ... e que a tal D. Helena
(Deus lhe perdoe!) no estava to inocente como dizia. 
verdade que a carta do denunciante...

-- O denunciante foi pago
para escrever a carta, explicou o Dr. Leo; meu pai soube disso, depois
da morte da mulher, ao passar pela Bahia... Meia-noite! Vamos dormir; 
tarde; amanh direi o resto.

-- No, no,
agora mesmo.

-- Mas, senhores... S
se for muito por alto.

-- Seja por alto.

O doutor levantou-se e foi espiar
a noite, estendendo o brao para fora, e recebendo alguns pingos de
chuva na mo. Depois voltou-se e deu com os dois olhando um para o
outro, interrogativos. Fez lentamente um cigarro, acendeu-o, e, puxadas umas
trs fumaas, concluiu a singular histria.

CAPTULO
VI

-- Meu pai deixou pouco
depois o Brasil, foi a Lisboa, e dali passou-se  ndia, onde se
demorou mais de cinco anos, e donde voltou a Portugal, com alguns estudos
feitos acerca daquela parte do mundo. Deu-lhes a ltima lima, e
f-los imprimir, to a tempo, que o governo mandou-o chamar para
entregar-lhe o governo de Goa. Um candidato ao cargo, logo que soube do caso,
ps em ao todos os meios possveis e
impossveis. Empenhos, intrigas, maledicncia, tudo lhe servia de
arma. Chegou a obter, por dinheiro, que um dos melhores latinistas da
pennsula, homem sem escrpulos, forjasse um texto latino da obra
de meu pai, e o atribusse a um frade agostinho, morto em Adm. E a tacha de plagirio acabou de eliminar meu pai, que perdeu o governo
de Goa, o qual passou s mos do outro; perdendo tambm, o
que  mais, toda a considerao pessoal. Ele escreveu uma
longa justificao, mandou cartas para a ndia, cujas
respostas no esperou, porque no meio desses trabalhos, aborreceu-se
tanto, que entendeu melhor deixar tudo, e sair de Lisboa. Esta
gerao passa, disse ele, e eu fico. Voltarei c daqui a
um sculo, ou dois.

-- Veja isto, interrompeu o
tabelio, parece coisa de caoada! Voltar da a um
sculo -- ou dois, como se fosse um ou dois meses. Que diz,
"seu" coronel?

-- Ah! eu quisera ser esse
homem!  verdade que ele no voltou um sculo depois... Ou
voltou?

-- Oua-me. Saiu dali
para Madri, onde esteve de amores com duas fidalgas, uma delas viva e
bonita como o sol, a outra casada, menos bela, porm amorosa e terna
como uma pomba-rola. O marido desta chegou a descobrir o caso, e no
quis bater-se com meu pai, que no era nobre; mas a paixo do
cime e da honra levou esse homem ofendido  prtica de
uma aleivosia, igual  outra: mandou assassinar meu pai; os esbirros
deram-lhe trs punhaladas e quinze dias de cama. Restabelecido, deram-lhe
um tiro; foi o mesmo que nada. Ento, o marido achou um meio de eliminar
meu pai; tinha visto com ele alguns objetos, notas, e desenhos de coisas
religiosas da ndia, e denunciou-o ao Santo Ofcio, como dado a
prticas supersticiosas. O Santo Ofcio, que no era
omisso nem frouxo nos seus deveres, tomou conta dele, e condenou-o a
crcere perptuo. Meu pai ficou aterrado. Na verdade, a
priso perptua para ele devia ser a coisa mais horrorosa do
mundo. Prometeu, o mesmo Prometeu foi desencadeado... No me interrompa,
Sr. Linhares, depois direi quem foi esse Prometeu. Mas, repito: ele foi
desencadeado, enquanto que meu pai estava nas mos do Santo
Ofcio, sem esperana. Por outro lado, ele refletiu consigo que,
se era eterno, no o era o Santo Ofcio. O Santo Ofcio
h de acabar um dia, e os seus crceres, e ento ficarei
livre. Depois, pensou tambm que, desde que passasse um certo
nmero de anos, sem envelhecer nem morrer, tornar-se-ia um caso
to extraordinrio, que o mesmo Santo Ofcio lhe abriria
as portas. Finalmente, cedeu a outra considerao. "Meu
filho, disse-me ele, eu tinha padecido tanto naqueles longos anos de vida,
tinha visto tanta paixo m, tanta misria, tanta
calamidade, que agradeci a Deus, o crcere e uma longa priso; e
disse comigo que o Santo Ofcio no era to mau, pois que
me retirava por algumas dezenas de anos, talvez um sculo, do
espetculo exterior..."

-- Ora essa!

-- Coitado! No
contava com a outra fidalga, a viva, que ps em campo todos os
recursos de que podia dispor, e alcanou-lhe a fuga da a poucos
meses. Saram ambos de Espanha, meteram-se em Frana, e passaram
 Itlia, onde meu pai ficou residindo por longos anos. A
viva morreu-lhe nos braos; e, salvo uma paixo que teve
em Florena, por um rapaz nobre, com quem fugiu e esteve seis meses, foi
sempre fiel ao amante. Repito, morreu-lhe nos braos, e ele padeceu
muito, chorou muito, chegou a querer morrer tambm. Contou-me os atos de
desespero que praticou; porque, na verdade, amara muito a formosa madrilena.
Desesperado, meteu-se a caminho, e viajou por Hungria, Dalmcia,
Valquia; esteve cinco anos em Constantinopla; estudou o turco a fundo,
e depois o rabe. J lhes disse que ele sabia muitas
lnguas; lembra-me de o ver traduzir o padre-nosso em cinqenta
idiomas diversos. Sabia muito. E cincias! Meu pai sabia uma infinidade
de coisas: filosofia, jurisprudncia, teologia, arqueologia,
qumica, fsica, matemticas, astronomia, botnica;
sabia arquitetura, pintura, msica. Sabia o diabo.

-- Na verdade...

-- Muito, sabia muito. E fez
mais do que estudar o turco; adotou o maometanismo. Mas deixou-o da a
pouco. Enfim, aborreceu-se dos turcos: era a sina dele aborrecer-se facilmente
de uma coisa ou de um ofcio. Saiu de Constantinopla, visitou outras
partes da Europa, e finalmente passou-se a Inglaterra aonde no fora
desde longos anos. Aconteceu-lhe a o que lhe acontecia em toda a parte:
achou todas as caras novas; e essa troca de caras no meio de uma cidade, que
era a mesma deixada por ele, dava-lhe a impresso de uma pea
teatral, em que o cenrio no muda, e s mudam os atores.
Essa impresso, que a princpio foi s de pasmo, passou a
ser de tdio; mas agora, em Londres, foi outra coisa pior, porque
despertou nele uma idia, que nunca tivera, uma idia
extraordinria, pavorosa...

-- Que foi?

-- A idia de ficar
doido um dia. Imaginem: um doido eterno. A comoo que esta
idia lhe dava foi tal que quase enlouqueceu ali mesmo. Ento
lembrou-se de outra coisa. Como tinha o boio do elixir consigo, lembrou
de dar o resto a alguma senhora ou homem, e ficariam os dois imortais. Sempre
era uma companhia. Mas, como tinha tempo diante de si, no precipitou
nada; achou melhor esperar pessoa cabal. O certo  que essa idia
o tranqilizou... Se lhe contasse as aventuras que ele teve outra vez na
Inglaterra, e depois em Frana, e no Brasil, onde voltou no vice-reinado
do Conde de Resende, no acabava mais, e o tempo urge, alm do
que o Sr. Coronel est com sono...

-- Qual sono!

-- Pelo menos est
cansado.

-- Nem isso. Se eu nunca ouvi
uma coisa que me interessasse tanto. Vamos; conte essas aventuras.

-- No; direi somente
que ele achou-se em Frana por ocasio da revoluo
de 1789, assistiu a tudo,  queda e morte do rei, dos girondinos, de
Danton, de Robespierre; morou algum tempo com Filinto Elsio, o poeta,
sabem? Morou com ele em Paris; foi um dos elegantes do Diretrio, deu-se
com o primeiro Cnsul... Quis at naturalizar-se e seguir as armas
e a poltica; podia ter sido um dos marechais do imprio, e pode
ser at que no tivesse havido Waterloo. Mas ficou to
enjoado de algumas apostasias polticas, e to indignado, que
recusou a tempo. Em 1808 achamo-lo em viagem com a corte real para o Rio de
Janeiro. Em 1822 saudou a independncia; e fez parte da Constituinte;
trabalhou no 7 de Abril; festejou a maioridade; h dois anos era
deputado.

Neste ponto os dois ouvintes
redobraram de ateno. Compreenderam que iam chegar ao desenlace,
e no quiseram perder uma slaba daquela parte da
narrao, em que iam saber da morte do imortal. Pela sua parte, o
Dr. Leo parara um pouco; podia ser uma lembrana dolorosa; podia
tambm ser um recurso para aguar mais o apetite. O
tabelio ainda lhe perguntou, se o pai no tinha dado a
algum o resto do elixir, como queria; mas o narrador no lhe
respondeu nada. Olhava para dentro; enfim, terminou deste modo:

-- A alma de meu pai chegara
a um grau de profunda melancolia. Nada o contentava; nem o sabor da
glria, nem o sabor do perigo, nem o do amor. Tinha ento perdido
minha me, e vivamos juntos, como dois solteires. A
poltica perdera todos os encantos aos olhos dum homem que pleiteara um
trono, e um dos primeiros do universo. Vegetava consigo; triste, impaciente,
enjoado. Nas horas mais alegres fazia projetos para o sculo XX e XXIV,
porque j ento me desvendara todo o segredo da vida dele.
No acreditei, confesso; e imaginei que fosse alguma
perturbao mental; mas as provas foram completas, e demais a
observao mostrou-me que ele estava em plena sade.
S o esprito, como digo, parecia abatido e desencantado. Um dia,
dizendo-lhe eu que no compreendia tamanha tristeza, quando eu daria a
alma ao diabo para ter a vida eterna, meu pai sorriu com uma tal
expresso de superioridade, que me enterrou cem palmos abaixo do
cho. Depois, respondeu que eu no sabia o que dizia; que a vida
eterna afigurava-se-me excelente, justamente porque a minha era limitada e
curta; em verdade, era o mais atroz dos suplcios. Tinha visto morrer
todas as suas afeies; devia perder-me um dia, e todos os mais
filhos que tivesse pelos sculos adiante. Outras afeies
e no poucas o tinham enganado; e umas e outras, boas e ms,
sinceras e prfidas, era-lhe foroso repeti-las, sem
trgua, sem um respiro ao menos, porquanto, a experincia
no lhe podia valer contra a necessidade de agarrar-se a alguma coisa,
naquela passagem rpida dos homens e das geraes. Era uma
necessidade da vida eterna; sem ela, cairia na demncia. Tinha provado
tudo, esgotado tudo; agora era a repetio, a monotonia, sem
esperanas, sem nada. Tinha de relatar a outros filhos, vinte ou trinta
sculos mais tarde, o que me estava agora dizendo; e depois a outros, e
outros, e outros, um no acabar mais nunca. Tinha de estudar novas
lnguas, como faria Anbal, se vivesse at hoje: e para
qu? para ouvir os mesmos sentimentos, as mesmas paixes... E
dizia-me tudo isso, verdadeiramente abatido. No parece esquisito? Enfim
um dia, como eu fizesse a alguns amigos uma exposio do sistema
homeoptico, vi reluzir nos olhos de meu pai um fogo desusado e
extraordinrio. No me disse nada. De noite, vieram chamar-me ao
quarto dele. Achei-o moribundo; disse-me ento, com a lngua
trpega, que o princpio homeoptico fora para ele a
salvao. Similia similibus curantur. Bebera o resto do
elixir, e assim como a primeira metade lhe dera a vida, a segunda dava-lhe a
morte. E, dito isto, expirou.

O coronel e o tabelio
ficaram algum tempo calados, sem saber que pensassem da famosa histria;
mas a seriedade do mdico era to profunda, que no havia
duvidar. Creram no caso, e creram tambm definitivamente na homeopatia.
Narrada a histria a outras pessoas, no faltou quem supusesse
que o mdico era louco; outros atriburam-lhe o intuito de tirar
ao coronel e ao tabelio o desgosto manifestado por ambos de no
poderem viver eternamente, mostrando-lhes que a morte , enfim, um
benefcio. Mas a suspeita de que ele apenas quis propagar a homeopatia
entrou em alguns crebros, e no era inverossmil. Dou
este problema aos estudiosos. Tal  o caso extraordinrio, que
h anos, com outro nome, e por outras palavras, contei a este bom povo,
que provavelmente j os esqueceu a ambos.
