Conto, Um Ambicioso, 1877

Um ambicioso

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, novembro,
1877.

I

 Mas Juca, tu
ests doente ou que ?

Esta pergunta era
feita pelo Sr. Mateus, com casa de louas  Rua da Sade, a um filho seu, que
ele foi encontrar, sentado numa mesa, com os ps sobre um mocho e os olhos
cravados na parede.

No era a
primeira vez que Jos Cndido, filho do Sr. Mateus, apresentava sintomas de
melancolia ou forte preocupao. Havia duas semanas que o pai reparava na
mudana do rapaz; e duas vezes lhe falou nisso; a primeira com ar indiferente,
mas afetado; a segunda com algum interesse. A terceira vez, que foi agora,
falou-lhe com a alma nas palavras, porque o Sr. Mateus, vivo e sem parentes,
salvo uma prima, concentrara todo seu corao em Jos Cndido, seu filho nico.

Jos Cndido
andava j perto dos trinta anos; faltavam-lhe um ou dois meses. Era um rapaz de
feies irregulares e de uma expresso alvar, sobretudo estando quieto. No era
magro nem gordo, alto nem baixo; mediano em tudo, exceto na inteligncia, que
era nfima. Tinha uma particularidade Jos Cndido; gostava de gravatas
amarelas. Em compensao detestava o trabalho. Vivia do que lhe dava o pai, que
possua a casa de louas, e uns cinco prdios; trinta contos ao todo.

O Sr. Mateus
repetiu as palavras com que esta narrao comea, e no obteve melhor resposta
do que um silncio sinistro e doloroso.

 Juca, responde!

 No  nada,
papai, disse Jos Cndido, acordando da contemplao em que estava; no  nada;
estou pensando na minha vida.

 Mas que tem a
tua vida?

 Nada, suspirou
o filho.

 Que ? que foi?
conta-me tudo. Tens alguma dvida?

 Oh! no!
protestou Jos Cndido com um gesto de pudor.

O Sr. Mateus
respirou; escapara ao maior perigo. Ele professava o princpio de no dever nem
fiar. Jos Cndido, vendo-o caminhar para a porta, cravou outra vez os olhos na
parede e mergulhou na contemplao.

O Sr. Mateus
voltara  loja, onde o caixeirinho, um menino, vindo de Iguau dois meses
antes, impingia a um fregus, por dois mil-ris, uma jarra de mil e quinhentos.

Esta
circunstncia prendeu a ateno do Sr. Mateus, que antes de ser pai, j era negociante,
e tinha, alm disso, o entusiasmo da profisso. A jarra custara-lhe novecentos
ris; ele marcara o preo de mil e quinhentos, a fim de ganhar seis tostes;
mas o caixeiro, que tinha a flama sagrada, achou meio de lhe fazer ganhar quase
o duplo.

A alma do Sr.
Mateus sorriu.

Quando, dez
minutos depois, tornou a pensar no filho, este apresentou-se-lhe na loja com o
chapu na mo. Tinha enfiado um palet preto, porque at ento estivera de
colete e em mangas de camisa, e ia sair.

O Sr. Mateus no
lhe ps obstculo; estimou que ele se distrasse.

 Queres
dinheiro? perguntou ao filho.

 No, senhor,
obrigado.

Saiu Jos
Cndido, e o Sr. Mateus sentou-se numa cadeira, que ficava por trs de um
balcozinho, ao fundo da loja. Sobre esse balco havia duas rumas de pratos,
por entre as quais o Sr. Mateus usava enfiar os olhos para ver o que se passava
na rua, ou vigiar a fidelidade e o tino do caixeiro.

Sentou-se, abriu
a caixa de tabaco, fungou uma pitada e reflexionou:

 Aquele rapaz
parece-me que anda apaixonado... Aquilo h de ser volta de mulher. No v ser
a alguma cabecinha tonta, alguma avoada...

Ele a dizer isso,
e a Sra. D. Incia a penetrar na loja.

 Seu amo est?
perguntou ela.

 Estou aqui,
prima, disse o Sr. Mateus fazendo-se visvel. Que anda fazendo?

 Eu, primo, ando
na lida!

 Sempre a
trabalhar?

  verdade.

 Sente-se. Traga
um mocho.

O caixeiro
obedeceu. A Sra. D. Incia sentou-se, tirou um leno do bolso do vestido, enxugou
a testa e a cara, e ofegou durante cinco minutos.

A Sra. D. Incia,
quarentona rechonchuda, pesada, mourejava no trabalho desde manh at  noite,
por culpa do Sr. Mateus, que, se quisesse, podia ter  ainda mesmo agora  o
corao da prima. Mas o Sr. Mateus, que olhava muita vez para a Sra. Incia com
olhos pouco anglicos, tinha tal aferro ao dinheiro, que no queria arriscar um
passo no fim do qual havia, ou podia haver, casamento ou despesa. A Sra. Incia
tinha trs filhas.

 Como est o Juca?
perguntou a Sra. Incia, depois de descansada.

 Assim, assim...
Vamos andando como Deus  servido. Sua obrigao?

 Rolando a
vida... A Chiquinha  que teve ontem um incmodo, uma dor no peito; mas
felizmente passou.

 So macacoas...
Eu tambm, s vezes aparece-me isto ou aquilo, mas no dia seguinte passa. Agora
mesmo, tenho aqui uma dor nas cadeiras...

 Veja um banho
de malvas; isso vai embora. Primo, sabe o que  que me trouxe aqui?

O Sr. Mateus
ficou com o corao pequenino.

 Era ver, continuou
a Sra. D. Incia, era ver se me fiava um aucareiro, porque o meu quebrou-se na
semana passada...

O Sr. Mateus, que
para resistir ao golpe, tirara a boceta de tabaco, tomou uma pitada, dando
tempo ao crebro de redigir uma resposta. E foi bom isso; porque lembrou-lhe a
tristeza misteriosa de Jos Cndido e teve a idia de pedir o auxlio da prima.

 Fiar, no fio,
disse ele; mas dou-lhe um aucareiro e um bule, que a tenho, de muito gosto.

E foi buscar os
dois objetos em um canto de uma das prateleiras.

 O bule tem um
pequeno defeito na asa, disse ele; e  pena, porque  bonito; este friso azul
d muita graa. Aceita?

 Ora, com muito
gosto! Bem bonitos!

 Embrulhe isso,
ordenou o Sr. Mateus ao caixeiro.

E sem mais
demora, enquanto o caixeiro embrulhava a loua, o Sr. Mateus expunha  prima a
causa de suas preocupaes e pedia-lhe auxlio.

 Aquilo pode ser
negcio de namoro... Um pai sempre deve dar-se ao respeito.

A Sra. D. Incia,
que acompanhara a confidncia com gestos afirmativos de cabea, em chegando
quele ponto compreendeu logo o que o Sr. Mateus lhe queria dizer. Compreendeu
e aceitou.

 Eu lhe falo,
no tem dvida. Eu pergunto assim como coisa minha... descanse.

 Hoje  quinta,
no? talvez no sbado.

 Pois sim;
veja-me isso... Veja se ele lhe conta alguma coisa.

 Deixe comigo,
disse a Sra. D. Incia, erguendo-se e sobraando o embrulho de loua, por baixo
do grande xale de ramagens.

E saiu a Sra. D.
Incia.

II

Jos Cndido,
logo que saiu de casa, dirigiu-se  Rua da Imperatriz, e entrou no corredor de
um sobrado.

 O Sr. capito
est em casa?

 Est.

 Quem ?
perguntou de dentro uma voz irritada.

 Um seu criado,
disse Jos Cndido.

Entrou.

O dono da casa
veio receb-lo  porta da sala, com um ar que contrastava com a voz de h
pouco, mas no com a voz que empregou ento, a qual era doce a mais no poder.

 Venha c, venha
c, disse ele; cuidei que j nos tinha esquecido.

 Estive c
anteontem.

 Pois ento!
Dois dias parece-lhe pouco?

Jos Cndido
sentiu-se satisfeito; entrou; sentou-se em uma cadeira de balano, que o dono
da casa lhe ofereceu. Era este o Capito Fabrcio, um homem alto e cheio,
grisalho, de olhos velhacos e pretos.

 Quer tomar
alguma coisa?

 No, senhor;
obrigado.

Fabrcio
sentou-se tambm, esfregou as mos, bateu com elas nos joelhos, exclamando:

 Ento parece
que a coisa vai!

 Ora, se vai!

 Ou tudo leva a
breca! concluiu Jos Cndido com ar marcial.

 Apoiado!

Seguiu-se um
silncio. Fabrcio foi o primeiro que falou:

 Tem feito
alguma das suas?

 Tenho. Um
barbeiro l da minha rua, e dois oficiais da mesma loja, que j estavam
apalavrados com os outros, declararam-me ontem que votam conosco.

 Assim!
assim!...  preciso no esmorecer. Hoje dois, amanh trs, no fim das contas
faz-se um rombo no inimigo.

E o capito riu
com um riso franco, amigvel, paternal, enquanto Jos Cndido, com os olhos nos
bicos dos botins, tinha o mesmo ar com que o pai o fora achar nessa manh.

 Eu, Sr.
capito... disse ele ao cabo de alguns segundos; queria falar-lhe numa coisa.

 Diga, diga.

 Talvez... pode
ser... mas...

 Mas?

 No me
atrevo...

 Atreva-se.

 Queria dizer...
sim... posso contar com sua proteo?

 Toda, toda, Sr.
Jos Cndido; pode contar comigo para tudo o que for de seu agrado. Tinha que
ver, que no pudesse contar com a boa vontade dos correligionrios, um homem
que tem feito o que o senhor tem feito. Diga, o que ?

Jos Cndido
mostrou-se animado com esse tom, ps toda a alma nas mos e preparou-se para
desembuchar o seu segredo, enquanto Fabrcio, com o ar mais afetuoso e servial
que possua, esperava que ele comeasse a falar.

Jos Cndido
falou.

Nunca a voz trmula
da donzela, que pela primeira vez confessa que ama, nunca foi mais doce, mais
tmida. Os olhos, ora no cho, ora no teto, pareciam envergonhados da audcia
do dono. A face, ordinariamente amarela como as gravatas, fez-se vermelha como
os botes de vidro do colete. A mo tremia, o lbio tremia, todo ele tremia.

 Eu, Sr.
capito, disse ele, eu desejava... ambicionava... supunha... sim... queria ser
eleitor...

O capito
entrelaou um riso e uma careta, fez um gesto de cabea e piscou os olhos.

 Ambio
legtima, disse ele; ambio muito legtima, a mais legtima possvel.

 Parece a
V.S....

 Pois no h de
parecer! Um homem digno, fiel ao partido, trabalhador...

 Por ora no
tenho pedido nada.

  verdade; no
tem pedido nada.

 Ento, posso
contar? perguntou Jos Cndido no cmulo da alegria.

O capito
deitou-lhe um pouco de gua na fervura.

 Por mim,
decerto; mas sabe que no depende s de mim; os correligionrios, os
candidatos, as influncias...

 Mas, se  certo
que eu posso ambicionar...

 Pode e deve.
Mas, como sabe, tudo neste mundo est sujeito a contingncias. O que eu posso
afirmar-lhe  que pode contar comigo.

 Oh!
interesse-se por mim!

Fabrcio
estendeu-lhe a mo.

 Conte com isso.

 Quanto a
recursos, se  preciso entrar com alguns, creio que posso dispor de quatro ou
seis contos de ris...

 Isso depois.
Vamos primeiramente ao essencial; amanh lhe darei a resposta. Amanh, no,
domingo  mais certo.

Jos Cndido saiu
da casa do capito com a alma a andar-lhe em um mar de jbilo. Eleitor! Jos
Cndido sentira nascer-lhe essa ambio algumas semanas antes; se  que ela
nasceu, se  que suas ambies podiam nascer. Existia desde o princpio dos
tempos; coexistiu com o caos. Desagregando-se da confuso das coisas, ficou no
espao  espera que nascesse Jos Cndido. Jos Cndido nasceu, ela
penetrou-lhe no crebro, onde residiu escondida at quase trinta anos. Um dia
rebentou como um aneurisma.

Jos Cndido tinha
a paixo eleitoral, mas s a paixo eleitoral, no a poltica. Era um cabalista
de primeira fora. Ele vivia no tempo das eleies trs vezes mais do que no
resto dos tempos. Por isso amava as dissolues da Cmara. Era a sua nica
ocupao, mas valia por trinta.

Tinha roda,
dispunha de votos; era exmio no meio de angariar votos contrrios, em trocar
cdulas, preparar fsforos, reunir invisveis.

No lhe
perguntassem qual era o seu partido; ele era do partido do capito. Houve um
tempo em que o capito entendeu conveniente fazer uma viravolta; Jos Cndido
no se alterou; ficou no mesmo lugar; ficou fiel ao capito. Este era a sua
bandeira, o seu programa, o seu sistema. Suas idias, princpios, simpatias,
eram as simpatias, princpios e idias do capito; fora dele era tudo
abominvel. E o capito sabia de que fora era o correligionrio. Quis um dia
arranjar-lhe uma patente de alferes, na Guarda Nacional, e ele recusou, com uma
abnegao romana. Jos Cndido era desinteressado, puro, incorruptvel.

Um dia, porm,
(fatal dia!) a ambio eleitoral deitou a ponta do nariz de fora. Jos Cndido
sentiu bater-lhe o corao fortemente, mais fortemente do que batia, quando ele
ia falar a Emlia, sua prima, filha da Sra. Incia. Que seria? Consultou-se; recuou
aterrado. Uma feiticeira de Macbeth bradava-lhe aos ouvidos: Tu sers eleitor, Jos Cndido!
Eleitor! sim; por que no? Ele os fazia, podia manipular-se a si prprio. Que
seria preciso? Apoio? Contava com o capito. Dinheiro? O pai lhe daria algum quando
soubesse que o filho ia ser eleitor. Esta idia  que o trazia desde tanto
tempo distrado, absorto, acima do tempo e do espao.

No eram muitas
nem decisivas as esperanas que Fabrcio lhe dera; mas as primeiras ambies
so fceis de iludir. Jos Cndido saiu da casa do capito certo de ver j o
seu nome proclamado aos quatro ventos do universo. Ele prprio sentia em si um
ar mais seguro, alguma coisa menos nfima. Seus olhos pareciam dizer s
esquinas, aos prdios, s caladas da rua: Vede; este  um dos bem-aventurados
da terra!

Ia neste sonho,
quando ao passar a ltima esquina, perto de casa, sentiu algum que lhe puxava
pela aba do palet.

III

A pessoa era uma
mulher; a mulher era a Sra. Incia.

 Onde vai voc,
Juca? disse ela.

Jos Cndido
sentira alguma coisa semelhante a um trambolho moral; sua alma caiu no cho.
Sorriu, contudo, apertou a mo  Sra. Incia, perguntou como iam todos.

 Todos vo bem;
e Emlia  que...

 Que tem?
doente?

 No; mas anda
aborrecida. Voc onde vai?

 Para casa.

 Vamos l  casa
primeiro.

 Vamos.

A Sra. Incia
morava perto; seguiram os dois, a falar de coisas indiferentes, ela atenta, ele
distrado.

 Que  que voc
tem, Juca? disse repentinamente a Sra. Incia.

 Eu?

 Sim; voc.

 Nada.

  impossvel.
Noto que voc anda h algum tempo distrado, meio aluado, falando pouco, assim
no sei como...

 Reparou nisso?
disse Jos Cndido com um ar de magnfica superioridade.

 Reparei. Que ?

Jos Cndido
parou.

 H coisas,
disse ele, superiores ao entendimento de uma senhora. Em geral, as senhoras no
pensam nos negcios pblicos... Eu penso nos negcios pblicos.

A Sra. Incia no
entendeu; ficou a olhar para ele, alguns instantes. Depois disse:

 Mas voc anda
distrado.

 Por isso mesmo.

 Isso mesmo o
qu?

Jos Cndido
levantou os ombros.

 Falemos de
outra coisa, disse ele; falemos de linhas e alfinetes. Onde comprou o seu xale?

 Na Rua do
Carmo, explicou a Sra. Incia; no custou muito caro.

 No?

 Dez mil-ris.

 Est bom!
murmurou Jos Cndido com os olhos e o pensamento no eleitorado.

A Sra. Incia
mordia-se de zanga; no tinha alcanado nada e queria saber tudo ou alguma
coisa: 1 porque podia ser namoro, e ela afagava a idia de cas-lo com a
filha; 2 porque no queria perder a fama de sagacidade e jeito, que adquirira
no bairro; 3 finalmente, porque tinha o olho em uma dzia de xcaras que havia
em casa do primo Mateus.

Trs boas razes.

Estavam perto da
casa dela; a Sra. Incia parou.

 Juca, vou pedir
a voc uma coisa.

 Diga.

 Voc h de me
dizer o que  que tem.

 Mas por qu?
que tenho eu?

 Alguma coisa;
voc no anda bom.

Jos Cndido j
no podia esconder o desdm que lhe causava o triste vulgo, e a pergunta da
Sra. Incia encheu a medida de seu infinito desprezo. Contudo era preciso
explicar-se.

 Se eu lhe
dissesse o que tenho, a senhora no me entendia...

 Isso agora!

 No entendia;
mas s lhe peo que acredite numa coisa; eu nunca hei de desprezar os meus;
posso fazer at muito benefcio, porque... enfim... a posio... a
importncia... Sim, um eleitor tem importncia.

 Eleitor?

 L me escapou;
sim, eleitor... no diga nada. Adeus!

E Jos Cndido
estendeu-lhe a mo.

 No vens ver as
pequenas? perguntou a Sra. Incia.

 Vou, vamos.

Foram; as meninas
fizeram muita festa ao primo; ele pde falar a ss, um minuto, com Emlia, que
era uma rechonchuda como a me, e saiu da a meia hora.

A Sra. Incia
ficara consternada. No chegara a entender o que Jos Cndido lhe dissera. A
Sra. Incia era pouco mais inteligente do que os seus sapatos. Para entender as
coisas era preciso que lhas dissessem com todas as letras, palavras, verbos e
advrbios, tudo explicadinho, repetido, claro, transparente. As palavras de
Jos Cndido no tinham para ela nem ligao nem explicao.

 H alguma
coisa, pensou ela;  preciso voltar  carga.

No foi preciso.
Jos Cndido contou-lhe tudo naquela mesma noite, sem pedido dela, mas de
prpria inspirao. Ele pensara na convenincia de ter algum que, ao p do
pai, abrisse caminho ao pedido dos quatro ou seis contos de ris precisos para
o cofre dos candidatos. Lembrou-se da Sra. Incia. Contou-lhe tudo, com muitas
e repetidas explicaes; depois disse o que queria.

 Cinco ou seis
contos! exclamou a Sra. Incia pondo as mos na cintura. Pois  preciso tanto
dinheiro para isso?

 A senhora no
entende de negcios pblicos, disse Jos Cndido com certa bonomia e
magnanimidade. No me pea explicaes; aceite o que lhe digo e ajude-me,
ajude-me que  ajudar os seus,  a glria da famlia.

 L isso !
concordou a Sra. Incia para fazer crer que entendia uma coisa to difcil que
Jos Cndido dizia ser superior ao entendimento das mulheres.

E depois de um
instante:

 Est certo de
que seu pai ceda?

 H de ceder.

 S de pensar
nisso, tremo!

 No trema! No
lhe pea nada. Diga-lhe s que eu estou quase eleitor e preciso de cinco
contos; que no me atrevo a pedi-los; que vivo aflito; que a glria da famlia
est ameaada...

 Espere,
interrompeu velhacamente a Sra. Incia; para obrig-lo mais, direi que a Emlia
ficou toda chorosa...

 A Emlia...
balbuciou Jos Cndido; mas...

 Anda l! pensa
que eu sou alguma tola? disse a Sra. Incia piscando os olhos.

Jos Cndido
baixou os olhos pudicamente. A Sra. Incia afianou-lhe que no levava a mal
seus sentimentos; chegava a aprov-los; talvez mesmo a aplaudi-los. Jos Cndido
apertou-lhe as mos, com certo ar, piscou um olho, e confirmou as suspeitas da
Sra. Incia, de modo que ela viu luzir-lhe nas prateleiras toda a loua da casa
do velho Mateus.

O velho Mateus
teve dois sobressaltos quando a prima lhe falou do caso; um de alegria, porque
a idia de ver o filho eleitor sempre lhe lisonjeava a vaidade; o outro de
terror, quando ela lhe fez ver que seriam precisos alguns quatro ou seis contos
de ris.

 Nunca! exclamou
ele dando um murro no balco.

Da a um quarto de
hora, tendo ouvido as palavras e rogativas da Sra. Incia, limitou-se a dizer,
mas j sem murro:

  muito
dinheiro!

Foi nessa ocasio
que Jos Cndido, que tudo escutava, entrou na loja. Estava plido
naturalmente; e artificialmente com o ar desvairado e as pernas bambas. Instou
por sua vez; disse que era a glria da famlia, a honra prpria, que os mais
altos destinos podiam estar no fim da campanha eleitoral.

O velho Mateus
resistiu.

Mas resiste-se um
dia, no se resiste em outro; e cada sol traz uma mudana  alma do homem. O
Sr. Mateus no era avesso  ambio, ainda que fosse homem pacato.
Verdadeiramente, ele no acreditava no eleitorado de Jos Cndido; mas este
asseverou tanto, e ficou to acabrunhado, falou de morrer, fez vrios trejeitos
mais, uns sinceros, outros exagerados, que afinal o Sr. Mateus prometeu um
conto, depois dois, finalmente os quatro, e somente os quatro.

Jos Cndido
cantou um Te Deum laudamus.



IV

Logo que obteve
resposta favorvel, Jos Cndido foi ter com o capito Fabrcio, que havia j
adiado a resposta trs vezes, dizendo no ter podido chegar a acordo.

Oh! que no sei
de nojo como conte a declarao feita pelo capito ao digno e ativo correligionrio!
Jos Cndido subiu as escadas a quatro e quatro. O eleitorado dava-lhe asas.
Subiu; entrou na sala do capito, falou-lhe trmulo.

 Ento?

Fabrcio tinha
preparado uma cara anloga ao ato, e suspirou uma vez, bateu duas vezes com a
mo no joelho, at que rompeu a fatal palavra.

 O nmero est
completo; nossos amigos pedem que voc espere para a eleio seguinte. Na
eleio seguinte o seu lugar  certo. Eu mesmo o defenderei, como o defendi
agora, como o defenderei sempre.

Jos Cndido
ouviu tudo aquilo mais plido que um defunto.

 Mas, Sr.
capito, eu...

 No diga nada,
interrompeu o capito; no pode dizer mais do que eu prprio disse a todos
eles...

 Contudo...

 Sei! Sei! No
h abnegao! No h unidade de pensamento...

Jos Cndido quis
ainda intercalar algumas frases, mas era impossvel; o capito interrompia-o
furioso para asseverar que a abnegao estava morta, que no havia fraternidade
poltica. Jos Cndido estava fulminado; no ouviu as primeiras palavras do
chefe. Quando voltou a si, insinuou ao capito que podia dispor dos meios
necessrios para obteno do diploma.

 A coisa est
feita, disse melancolicamente o capito.

Jos Cndido
torcia os braos.

 Cheguei a dizer
que cedia o meu lugar em seu proveito...

 E ento?

 Recusaram.

 Ah! trata-se
ento de uma guerra pessoal...

 No! Sou
obrigado a dizer que, nesse ponto, o pensamento dos nossos amigos foi no se
desfazerem do meu nome, que eles supem (com razo) cercado de certo prestgio.

Jos Cndido
ainda insistiu, bradou, implorou; o capito animou-o com as mais brilhantes
promessas, chegando a dizer que ele se retiraria da arena poltica, para todo o
sempre, se por ventura o seu nobre amigo no fosse includo na lista dos
candidatos futuros. Era muito, mas eram promessas somente, e Jos Cndido vivia
j de uma suposta realidade.

Durante trs dias
o mancebo andou desatinado, at que no quarto dia, por uma dessas resolues
que levam os Csares a atravessar o Rubico, Jos Cndido galgou a muralha das
consideraes polticas; retirou o seu concurso ao capito; em vez de lutar
contra um partido, disps-se a lutar contra dois; determinou enfim
apresentar-se candidato.

O Sr. Mateus no
era homem de dar os quatro contos, mediante a garantia nica da influncia do
filho, sem o concurso de um partido. Jos Cndido, que o sabia, empregou uma
perfdia; nada disse ao pai do que se passara com o capito. Pelo contrrio,
deu-se como aceito e aplaudido; figurou que ia ter com ele muitas vezes; falava
de concilibulos, circulares, entrevistas, uma agitao comum. Oito dias
depois, o pai aventava os quatro contos e entregava-os ao jovem candidato.
Importa dizer que, na mente do Sr. Mateus, os quatro contos no eram deitados 
rua; ele meditava j obter umas empreitadas, por intermdio do futuro eleitor.
No! ele no era homem de dar dinheiro por nada. Nada por dinheiro ainda era
possvel.

 Vo para a
caixa, disse Jos Cndido atando as notas.

O Sr. Mateus
suspirou; mas a aludida reserva mental e a vaidade de ver as grandezas
polticas do filho, de algum modo lhe minoraram as saudades.

Jos Cndido,
ambicioso impotente mas fantstico, viu tudo cor-de-rosa, contemplava j os
dois partidos de cara  banda, vendo triunfar um nome no cogitado por eles.
Havia mesmo em seu ntimo certo desejo de derrotar pessoalmente o capito, por
no ter alcanado a aceitao de seu nome. Chegava-lhe aos ouvidos o eco de
futuras conversaes nos crculos polticos:

 Jos Cndido
venceu!

 Eleitor Jos
Cndido!

  um golpe
inesperado!

  uma desforra
da opinio pblica!

  isto!

  aquilo!

No se podia
negar que Jos Cndido dispunha de alguns votos certos; ao todo, uns vinte e
cinco. Podia ter esperana em alguns votos provveis; uns cinqenta. Era pouco,
era quase nada; mas ele contava com algumas artes particulares que tinha.

Uma vez resolvido
a lutar, atirou-se Cndido  arena, com alma e corao. Tratou primeiro que
tudo de organizar umas listas excluindo o capito e incluindo o seu nome, e fez
crer aos votantes que o acompanhavam que essa deciso tinha sido tomada pelos
centros polticos da capital. Ao barbeiro, acenou com a possibilidade de o
incluir tambm; e o barbeiro, cujas ambies no iam acima da rabeca, sentiu
uma espcie de vertigem, uma exploso interior e acabou aceitando a oferta.

Os quatro contos
do Sr. Mateus comearam a ter uma extrao lenta, mas certa. Almoo daqui, ceia
dacol, um presente, um emprstimo, todas as formas da reduo, que podem estar
ao alcance de quatro contos e de um candidato desejoso de fazer a chapa, todas
foram empregadas com muito mtodo e singular tenacidade.

O dia
aproximava-se a passos de gigante.

V

Um dia de manh o
Sr. Mateus teve um acesso de clera. Abrira o Jornal do Comrcio e lera
a lista definitiva dos candidatos ao eleitorado da Parquia. O nome do filho
brilhava pela ausncia!

Foi um Dies
irae.

O Sr. Mateus, com
o jornal amarrotado na mo, precipitou-se no quarto de Jos Cndido.

 Malandro!
pelintra! ratoneiro! Que  isto? Onde esto os meus quatro contos? dizia ele
fazendo da gazeta um chicote e ferindo com ele o ar.

 Que ? disse o
filho espantado.

O Sr. Mateus
berrou ainda alguns adjetivos, primeiro que explicasse o motivo da clera.
Depois explicou. Jos Cndido ficou plido, mas dominou-se logo. Simulou um
grande espanto, e prometeu que ia saber o motivo daquilo. O dinheiro no estava
perdido, porque s o dera com a condio do eleitorado.

 Tolo fui eu em
ceder! exclamou o Sr. Mateus.

Jos Cndido saiu
e voltou da a uma hora.

 Tudo est
explicado, disse ele, essa lista  apcrifa.

Jos Cndido
tinha apreendido a palavra apcrifa, nas lutas eleitorais; o pai, que
nunca entrara nelas, ignorava absolutamente o sentido da palavra e teve
vergonha de o pedir. Felizmente o boticrio defronte tinha um dicionrio, que
lhe emprestou, e ele pde ler a definio do termo, e com certo custo aplicou-o
ao caso.

Infelizmente, no
dia seguinte era publicada uma circular poltica recomendando a lista que se
dizia apcrifa; e dessa vez no era lcito duvidar, salvo se a circular fosse
tambm apcrifa, o que Jos Cndido no teve nimo de dizer. Confessou tudo;
acrescentou que por motivos polticos ele no fora includo na lista, mas que o
partido o ajudaria por trs da cortina.

 Mas o dinheiro?
bradou o pai, que ia achando apcrifos tanto o partido como a cortina.

 O dinheiro...

 Sim, onde est?

 O dinheiro 
necessrio  luta, disse Jos Cndido com um ar ingnuo. Quando duas faces de
um mesmo grupo de interesses...

 Qual,
interesses! Vai buscar o dinheiro.

Era difcil
obedecer. Parte dele estava j em jantares, charutos, palets, emprstimos,
pagamento de dvidas. Demais, Jos Cndido no cederia nunca. Disse-lhe que o
dinheiro tinha seguido o seu destino.

O Sr. Mateus
sentiu alguma coisa semelhante a um tiro na boca do estmago. Caiu numa
cadeira, bufou, espumou, declarou a Jos Cndido que sasse e nunca mais lhe
pusesse os ps em casa. Jos Cndido no fez grande esforo para ficar; aceitou a soluo e saiu.

 Nunca mais!
bradou o pai. Ouviste? nunca mais!

E vendo-o sair
sem dizer palavra, sem tentar abrand-lo, sem um remorso aparente, o Sr. Mateus
sentiu uma comoo superior  da perda dos quatro contos. A paternidade falou
mais alto que o dinheiro.

Meia hora depois
voltou  loja com os olhos vermelhos.

Tinha chorado.

Jos Cndido no
chorou; saiu teso, at risonho, com os olhos na estrela eleitoral, certo de que
o pai lhe abriria a porta e os braos no dia em que o visse aparecer
triunfante. Foi dali ao barbeiro, contou-lhe o caso e as esperanas, que no
perdera de abrandar a clera do pai, quando fosse eleito. O barbeiro, dentro em
si, reprovou o incidente; mas a esperana de um triunfo  custa do dinheiro de
Jos Cndido f-lo calar todos os escrpulos. Ele aprovou de boca o
procedimento de Jos Cndido, que achou digno sem ser desrespeitoso. Esta
opinio, que o envergonhava, foi dita ao mesmo tempo que ele afinava a rabeca;
meio de se no ouvir a si prprio.

A notcia da
expulso de Jos Cndido caiu como uma bomba em casa da Sra. Incia. Esta deu
um salto ao xale e precipitou-se para casa do primo, a saber do que havia,
enquanto Emlia, a namorada de Jos Cndido, se desfazia em lgrimas amargas.

No meio das
lgrimas apareceu-lhe Jos Cndido.

 Ser verdade?
perguntou a moa.

 O qu?

 Que voc foi
posto fora de casa.

Jos Cndido
ergueu os ombros. Emlia soltou um dilvio de novas lgrimas.

 Mas por que
chora voc? perguntou Jos Cndido exasperado.

 Por qu?
perguntou a moa indignada.

 Sim, por qu?

Emlia disse que
ele era um ingrato, e intimou-o a reconciliar-se com o pai; insinuou-lhe mesmo
que o fato da expulso podia demorar ou tornar impossvel a aliana conjugal
que os dois ambicionavam. Sou obrigado a dizer que este era o motivo secreto
das lgrimas de Emlia.

Jos Cndido
respondeu com um repelo, declarou que tudo estava acabado entre eles, e saiu,
sempre com os olhos na estrela eleitoral. O barbeiro teve igualmente notcia
deste rompimento; e secretamente achou que era complicar a situao j
melindrosa; mas de viva voz confessou que os sentimentos de segunda ordem no
podem impedir a expanso dos altos interesses e das nobres paixes cvicas. Seu
estilo foi menos levantado, mas a idia foi aquela.

Jos Cndido
concordava com tudo; animava-o a idia de que no h arrufos diante de um
candidato vencedor, e vivia com os olhos nas urnas. Uma dzia de sujeitos
trabalhava em favor dele; dois viviam dia e noite a copiar cdulas. Jos
Cndido, vendo quinhentas, mil, duas mil cdulas manuscritas, imaginara que
eram outros tantos votos, e figurava j o efeito de seu nome impresso com o
algarismo dos votos adiante. Nunca mais fora  casa do capito. Este duas ou
trs vezes mandou-o chamar; uma vez chegou a procur-lo, mas no o encontrou;
deixou um recado, intil.

Os dois caudilhos
estavam divorciados.

E  proporo que
os quatro contos iam fugindo, a aurora esperada vinha a aproximar-se de Jos
Cndido; o barbeiro e mais dois ou trs frvidos partidrios faziam esforos
hercleos. Jos Cndido chegou a sacrificar alguns mil-ris, nos jornais, em
mofinas deste gnero:

ELEITORADO

Recomendamos o nome de um jovem cheio de servios e de
incontestvel aptido: o Sr. Jos Cndido.

Um do Povo

Ou assim:

AO POVO!

Votemos no sr. Jos Cndido, uma das esperanas da
mocidade e um dos fluminenses mais dignos por seus servios e modstia.

Justus

Ou assim:

 URNAS!

Os homens honestos, amigos do talento e reconhecidos
aos verdadeiros servios, tm um candidato certo, que sair eleito, porque
felizmente goza da mais vasta popularidade na parquia: o Sr. Jos Cndido. s
urnas! s urnas!

Um que no falta

VI

Chegou o dia;
Jos Cndido no dormiu a noite antecedente; deixou a cama com a aurora.
Preparou-se; atou ao pescoo a gravata mais amarela de sua coleo e foi animar
as fileiras. Pelos seus clculos tinha quinhentos votos certos; a estes deviam
acrescer uns duzentos votos de simpatia, ou pessoal ou produzida pelas mofinas
dos jornais. Vrios amigos ainda lhe filaram alguns mil-ris, que ele entregou
em dobro, para fortalecer as opinies. As horas corriam, ele esperava ansioso o
momento fatal.

E, coisa curiosa!
no esperavam com menos nsia o pai e a namorada. A idia de o ver triunfante,
sem que eles dessem por isso, j lhes fazia ccegas no corao. O Sr. Mateus
amaldioara o filho, mas no se lhe daria de abenoar o eleitor. Quanto a
Emlia, havia um pouco de vaidade e um pouco de interesse; o interesse era a
reconciliao possvel da famlia.

Jos Cndido foi
ao barbeiro, que o recebeu um pouco melanclico.

O capito
arranjara no bairro um rival de Jos Cndido, e mandara-o contraminar o
trabalho deste, no por medo de que a candidatura vencesse, mas para no perder
alguns votos, que dariam mais fora  vitria da chapa. Ora, esse agente
secreto estivera nessa manh na loja do barbeiro, e abrira-lhe os olhos de tal
modo, que o barbeiro estava aterrado, no com a idia da derrota, mas com a do
ridculo.

No foi difcil a
Jos Cndido restabelecer o fervor do barbeiro cujo esprito viera a este
mundo, destinado a mover-se a todos os ventos do horizonte.

 Tem razo,
disse ele; voc tem razo. So tricas!

 Ora, voc ainda
vai com cantigas! O que eles querem  justamente assustar e desanimar a gente.
Nada de fugir de caretas.

 Apoiado!

 Vamos  igreja!

 Vamos!

Fechou-se a loja;
os dois oficiais tiveram sueto para ir votar. Alguns fregueses, dando com a
porta fechada, praguejaram contra a indolncia do Fgaro eleitoral; mas no
lucraram nada com isto. A porta no se abriu.

A luta foi longa,
renhida, desesperada. Jos Cndido ps em ao todas as molas de seu gnio
cabalista; ia, vinha, andava, parava, chapu na mo ou na cabea, bolso cheio
de cdulas, dando-as a um, trocando a de outro, enchendo as algibeiras dos
votantes. A cada instante dava o sinal dos rolos; apoiava um e outro partido,
quando se tratava de denunciar um fsforo e impedi-lo de votar. Nem
nesse dia nem no seguinte comeu coisa que pudesse razoavelmente aliment-lo.
Todo ele era agitao, esperana, ambio, sonho. As vinte pessoas que o
rodeavam freqentemente, por uma dessas iluses do desejo, afiguravam-se-lhe
todo o corpo dos votantes; e dizendo-lhe elas que ele tinha uma maioria
formidvel, ele cria e sorria.

Nas primeiras
horas o barbeiro esteve mole e pacato; mas o ardor de Jos Cndido
comunicou-se-lhe; a esperana fez o resto.

 Que tal ir a
coisa? perguntava-lhe s vezes Jos Cndido.

 Soberba! dizia
invariavelmente o barbeiro. Vai como se quer!

Enfim, a agitao
cessou; comeou a apurao dos votos.

 Vamos ver quem
tem garrafas vazias, dizia Jos Cndido na vspera da apurao.

No obstante essa
convico do triunfo, Jos Cndido tremia s vezes; olhava um pouco desconfiado
para a urna, em cujo ventre estava a glria ou a ignomnia. Se em vez de
triunfo... Essa idia negra era felizmente breve; a esperana cobria-o de suas
folhas verdes; ele repousava tranqilo sobre os futuros louros.

No menos
satisfeito andava o barbeiro; e Jos Cndido nutria esse fogo mais inocente que
sagrado. Contudo, ele no contava com a vitria do barbeiro, em outras razes,
porque lhe cortara muitos votos. Alguns aceitavam o nome de Jos Cndido,
cabalista conhecido, mas duvidavam das opinies do outro ou das suas aptides
eleitorais. Jos Cndido insistia frouxamente; e quando via o seu nome em
perigo lanava ao mar o nome do aliado. Ora, o aliado, que nada disso viu nem
suspeitou, nadava em jbilo e sentia em si um coro de gratido pela notoriedade
que Jos Cndido ia dar-lhe. No cessava de lhe apertar as mos, de dizer que
ele era um homem superior.

 No  verdade?
acudia Jos Cndido ouvindo nas palavras do outro o eco de seus prprios
pensamentos.

A aurora, com
seus dedos de rosa, abriu as portas do cu ao sol do grande dia; mas parece que
o sol, adivinhando alguma coisa do que se ia passar, no quis alumiar os
sucessos desse dia e velou nobremente o rosto. Velou o rosto, enquanto o juiz
de paz e mesrios iam tomar seus lugares no templo,  roda da mesa, onde estava
a urna que continha em seu bojo os destinos de uma existncia.

A apurao
comeou. O presidente lia os nomes dos eleitos, que dois mesrios escreviam.
Esta leitura montona era um dos maiores prazeres que Jos Cndido conhecia na
terra; naquela ocasio era o prazer mximo; devia s-lo ao menos.

As primeiras
listas no continham o nome de Jos Cndido e muito menos o do barbeiro. Este,
candidato novel, lanava ao filho do Sr. Mateus olhos de angstia e
desesperao; mas Jos Cndido tranqilizava-o, dizendo-lhe ao ouvido que as
primeiras listas no decidem uma eleio.

 Sim, confirmava
o barbeiro; o primeiro milho  dos pintos.

S no outro dia
acabou a apurao. Seu resultado, na parte que nos interessa, foi o seguinte:

Jos Cndido . . .
37 votos

O barbeiro . . . .
15 votos

Uma iluso engendra
ordinariamente outra. Jos Cndido escondeu-se de todos, oito dias, persuadido
que acabava de obter a celebridade da derrota. No fim esse tempo apareceu; mas
andava com os olhos baixos. O primeiro desconhecido que lhe pedia fogo parecia
estar dizendo:

 Coitado! Deve
ter padecido muito.

Alguns, os
conhecidos, falavam da eleio, mas com entusiasmo sincero, porque lhes parecia
que o voto de trinta e sete pessoas era um sonho realizado para Jos Cndido.
Este ouvia esses aplausos com um grande desespero na alma, porque era preciso
ser muito inferior para achar alguma coisa significativa em 37 votos.

Contudo, esses
dois algarismos, com o tempo, tornaram-se menos nfimos aos olhos de Jos
Cndido. Eram nfimos, durante a convalescena da derrota; mas os dias passam,
o desgosto amortece, a ambio perde as penas, e os 37 votos ficaram sendo um
ttulo, uma recordao, uma espcie de aurora eleitoral. Jos Cndido, que at
ento no quisera mais pr os olhos no fatal nmero, foi ele prprio comprar
alguns exemplares das folhas que haviam publicado a apurao. Leu o seu nome;
fez-lhe bem a vista desses votos, mais cinco do que os obtidos por um mdico,
mais sete do que os votos dados a um desembargador; enfim, um proprietrio da
vizinhana figurava apenas com um voto, lembrana lisonjeira de um inquilino
atrasado nos aluguis.

Um ano depois
deste acontecimento, as coisas tinham mudado. O Sr. Mateus falecera. Jos
Cndido, que deixara pai, noiva, afeies de famlia, interesses domsticos,
por uma candidatura mais do que problemtica, reconciliara-se com o autor de
seus dias, de quem herdou as casas e a loja. A Sra. Incia no gastou muito
latim para realizar o casamento da filha; ele veio de si mesmo; duplo sonho
realizado, porque no s arranjou a filha, como reformou a loua da casa, que
estava deficientssima.

Uma s pessoa
faltava: o Sr. Mateus; mas a ausncia era compensada pela herana.

Os meses
correram, depois os anos; vieram os filhos. O barbeiro, que a troco de 15 votos,
perdera quinze fregueses, tinha rompido as relaes com Jos Cndido, mas nos
ltimos tempos reconciliara-se. Jos Cndido foi perdendo, uma a uma, suas
paixes e iluses da juventude. Sacrificou o amor da vadiao e as eleies.
Sobre este ponto, ele explicava tudo e mais que tudo, exceto uma coisa, para
ele metafsica e inextricvel.

 Por que razo,
dizia ele, s vezes, consigo, eu, que ajudei os outros a vencer, no pude
vencer naquele dia?

E pensando assim,
brilhavam-lhe diante dos olhos os 37 votos. Ele lisonjeava-se j com esse
nmero escasso; falava dele com certa fatuidade. s vezes, conversando com o
barbeiro, diziam ambos, para recordar um fato e uma data:

 Foi no ano da
nossa luta eleitoral.

E ao dizer isso,
Jos Cndido parecia inchar, subir, trepar s eminncias; sentia-se superior;
seus olhos derramavam um olhar satisfeito ao passado. Depois concertava a
gravata, a mais e mais amarela, com o gesto de um homem que preencheu seus
destinos; puxava o colete para baixo com outro gesto sacudido, rpido,
imperioso. E o resto do dia era um deleite, uma vida luminosa, dourada,
juvenil... Pobres mortais! At a ambio  caduca.
