Conto, Mariana, 1871

Mariana



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, janeiro de 1871.

Voltei de Europa depois de uma
ausncia de quinze anos. Era quanto bastava para vir achar muita coisa mudada.
Alguns amigos tinham morrido, outros estavam casados, outros vivos. Quatro ou
cinco tinham-se feito homens pblicos, e um deles acabava de ser ministro de
Estado. Sobre todos eles pesavam quinze anos de desiluses e cansao. Eu,
entretanto, vinha to moo como fora, no no rosto e nos cabelos, que comeavam
a embranquecer, mas na alma e no corao que estavam em flor. Foi essa a vantagem que tirei das minhas constantes viagens. No h decepes possveis
para um viajante, que apenas v de passagem o lado belo da natureza humana e
no ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio. Mas deixemos estas filosofias
inteis.

Tambm achei mudado o nosso Rio de
Janeiro, e mudado para melhor. O jardim do Rocio, o boulevard Carceller,
cinco ou seis hotis novos, novos prdios, grande movimento comercial e
popular, tudo isso fez em meu esprito uma agradvel impresso.

Fui hospedar-me no Hotel Damiani.
Chamo-lhe assim para conservar um nome que tem para mim recordaes saudosas.
Agora o hotel chama-se Ravot. Tem defronte uma grande casa de modas e um
escritrio de jornal poltico. Dizem-me que a casa de modas faz mais negcio
que o jornal. No admira; poucos lem, mas todos se vestem.

Estava eu justamente a contemplar
o espetculo novo que a rua me oferecia quando vi passar um indivduo cuja
fisionomia me no era estranha. Desci logo  rua e cheguei  porta quando ele
passava defronte.

 Coutinho! exclamei.

 Macedo! disse o interpelado
correndo a mim.

Entramos no corredor e a demos
aberta s nossas primeiras expanses.

 Que milagre  este? por que
ests aqui? quando chegaste?

Estas e outras perguntas fazia-me
o meu amigo entre repetidos abraos. Convidei-o a subir e a almoar comigo, o
que aceitou, com a condio porm de que iria buscar mais dois amigos nossos,
que eu estimaria ver. Eram efetivamente dois excelentes companheiros de outro
tempo. Um deles estava  frente de uma grande casa comercial; o outro, depois
de algumas vicissitudes, fizera-se escrivo de uma vara cvel.

Reunidos os quatro na minha sala
do hotel, foi servido um suculento almoo, em que alis eu e o Coutinho tomamos
parte. Os outros limitavam-se a fazer a razo de alguns brindes e a propor
outros.

Quiseram que eu lhes contasse as
minhas viagens; cedi francamente a este desejo natural. No lhes ocultei nada.
Contei-lhes o que havia visto desde o Tejo at o Danbio, desde Paris at
Jerusalm. Fi-los assistir na imaginao s corridas de Chantilly e s jornadas
das caravanas no deserto; falei do cu nevoento de Londres e do cu azul da
Itlia. Nada me escapou; tudo lhes referi.

Cada qual fez as suas confisses.
O negociante no hesitou em dizer tudo quanto sofrera antes de alcanar a
posio atual. Deu-me notcia de que estava casado, e tinha uma filha de dez
anos no colgio. O escrivo achou-se um tanto envergonhado quando lhe tocou a
vez de dizer a sua vida; todos ns tivemos a delicadeza de no insistir nesse
ponto.

Coutinho no hesitou em dizer que era
mais ou menos o que era outrora a respeito da ociosidade; sentia-se entretanto
mudado e entrevia ao longe idias de casamento.

 No te casaste? perguntei eu.

 Com a prima Amlia? disse ele;
no.

 Por qu?

 Porque no foi possvel.

 Mas continuaste a vida solta que
levavas?

 Que pergunta! exclamou o
negociante.  a mesma coisa que era h quinze anos. No mudou nada.

 No digas isso; mudei.

 Para pior? perguntei eu rindo.

 No, disse Coutinho, no sou
pior do que era; mudei nos sentimentos; acho que hoje no me vale a pena cuidar
de ser mais feliz do que sou.

 E podias s-lo, se te houvesse
casado com tua prima. Amava-te muito aquela moa; ainda me lembro das lgrimas
que lhes vi derramar em um dia de entrudo. Lembras-te?

 No me lembra, disse Coutinho
ficando mais srio do que estava; mais creio que deve ter sido isso.

 E o que  feito dela?

 Casou.

 Ah!

  hoje fazendeira; e d-se
perfeitamente com o marido. Mas no falemos nisto, acrescentou Coutinho,
enchendo um clix de cognac; o que l vai, l vai!

Houve alguns instantes de
silncio, que eu no quis interromper, por me parecer que o nome da moa
trouxera ao rapaz alguma recordao dolorosa.

Rapaz  uma maneira de dizer.
Coutinho contava j seus trinta e nove anos e tinha alguns fios brancos na
cabea e na barba. Mas apesar desse evidente sinal do tempo, eu aprazia-me em
ver os meus amigos pelo prisma da recordao que levara deles.

Coutinho foi o primeiro que rompeu
o silncio.

 Pois que estamos aqui reunidos,
disse ele, ao cabo de quinze anos, deixem que, sem exemplo, e para completar as
nossas confidncias recprocas, eu lhes confesse uma coisa, que nunca saiu de
mim.

 Bravo! disse eu; ouamos a
confidncia de Coutinho.

Acendemos nossos charutos.
Coutinho comeou a falar:

 Eu namorava a prima Amlia, como
sabem; o nosso casamento devia efetuar-se um ano depois que daqui saste. No
se efetuou por circunstncias que ocorreram depois, e com grande mgoa minha,
pois gostava dela. Antes e depois amei e fui amado muitas vezes; mas nem depois
nem antes, e por nenhuma mulher fui amado jamais como fui...

 Por tua prima? perguntei eu.

 No; por uma cria de casa.

Olhamos todos espantados um para
outro. Ignorvamos esta circunstncia, e estvamos a cem lguas de semelhante
concluso. Coutinho no parece atender ao nosso espanto; sacudia distraidamente
a cinza do charuto e parecia absorto na recordao que o seu esprito evocava.

 Chamava-se Mariana, continuou
ele alguns minutos depois, e era uma gentil mulatinha nascida e criada como
filha da casa, e recebendo de minha me os mesmos afagos que ela dispensava s
outras filhas. No se sentava  mesa, nem vinha  sala em ocasio de visitas,
eis a diferena; no mais era como se fosse pessoa livre, e at minhas irms
tinham certa afeio fraternal. Mariana possua a inteligncia da sua situao,
e no abusava dos cuidados com que era tratada. Compreendia bem que na situao
em que se achava s lhe restava pagar com muito reconhecimento a bondade de sua
senhora.

A sua educao no fora to
completa como a de minhas irms; contudo, Mariana sabia mais do que outras
mulheres em igual caso. Alm dos trabalhos de agulha que lhe foram ensinados
com extremo zelo, aprendera a ler e a escrever. Quando chegou aos 15 anos teve
desejo de saber francs, e minha irm mais moa lho ensinou com tanta pacincia
e felicidade, que Mariana em pouco tempo ficou sabendo tanto como ela.

Como tinha inteligncia natural,
todas estas coisas lhe foram fceis. O desenvolvimento do seu esprito no
prejudicava o desenvolvimento de seus encantos. Mariana aos 18 anos era o tipo
mais completo da sua raa. Sentia-se-lhe o fogo atravs da tez morena do rosto,
fogo inquieto e vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os
cabelos naturalmente encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo
voluptuoso, p pequeno e mos de senhora.  impossvel que eu esteja a
idealizar esta criatura que no entanto me desapareceu dos olhos; mas no
estarei muito longe da verdade.

Mariana era apreciada por todos
quantos iam a nossa casa, homens e senhoras. Meu tio, Joo Lus, dizia-me
muitas vezes:  Por que diabo est tua me guardando aqui em casa esta flor
peregrina? A rapariga precisa de tomar ar.

Posso dizer, agora que j passou
muito tempo, esta preocupao do tio nunca me passou pela cabea; acostumado a
ver Mariana bem tratada parecia-me ver nela uma pessoa da famlia, e alm
disso, ser-me-ia doloroso contribuir para causar tristeza a minha me.

Amlia ia l a casa algumas vezes;
mas era o princpio, e antes que nenhum namoro houvesse entre ns. Cuido,
porm, que foi Mariana quem chamou a ateno da moa para mim. Amlia deu-mo a
entender um dia. O certo  que uma tarde, depois de jantar, estvamos a tomar
caf no terrao, e eu reparei na beleza de Amlia com uma ateno mais demorada
que de costume. Fosse acaso ou fenmeno magntico, a moa olhava tambm para
mim. Prolongaram-se os nossos olhares... ficamos a amar um ao outro. Todos os
amores comeam pouco mais ou menos assim.

Acho intil contar minuciosamente
este namoro de rapaz, que vocs em parte conhecem, e que no apresentou
episdio notvel. Meus pais aprovaram a minha escolha; os pais de Amlia
fizeram o mesmo. Nada se opunha  nossa felicidade. Preparei-me um dia de ponto
em branco e fui pedir a meu tio a mo da filha. Foi-me ela concedida, com a
condio apenas de que o casamento seria efetuado alguns meses depois, quando o
irmo de Amlia tivesse completado os estudos, e pudesse assistir  cerimnia
com a sua carta de bacharel.

Durante este tempo Mariana estava
em casa de uma parenta nossa que n-la foi pedir para costurar uns vestidos.
Mariana era excelente costureira. Quando ela voltou para casa, estava assentado
o meu casamento com Amlia; e, como era natural, eu passava a maior parte do
tempo em casa da prima, saboreando aquelas castas efuses de amor e ternura que
antecedem o casamento. Mariana notou as minhas prolongadas ausncias, e, com
uma dissimulao assaz inteligente, indagou de minha irm Josefa a causa delas.
Disse-lho Josefa. Que se passou ento no esprito de Mariana? No sei; mas no
dia seguinte, depois do almoo quando eu me dispunha a ir vestir-me, Mariana
veio encontrar-me no corredor que ia ter ao meu quarto, com o pretexto de
entregar-me um mao de charuto que me cara do bolso. O mao fora previamente
tirado da caixa que eu tinha no quarto.

 Aqui tem, disse ela com voz
trmula.

 O que ? perguntei.

 Estes charutos... caram do
bolso de senhor moo.

 Ah!

Recebi o mao de charutos e
guardei-o no bolso do casaco; mas durante esse tempo, Mariana conservou-se
diante de mim. Olhei para ela; tinha os olhos postos no cho.

 Ento, que fazes tu? disse eu em
tom de galhofa.

 Nada, respondeu ela levantando
os olhos para mim. Estavam rasos de lgrimas.

Admirou-me essa manifestao
inesperada da parte de uma rapariga que todos estavam acostumados
a ver alegre e descuidosa da vida. Supus que houvesse cometido alguma falta e recorresse
a mim para proteg-la junto de minha me. Nesse caso a falta devia ser grande,
porque minha me era a bondade em pessoa, e tudo perdoava s suas amadas crias.

 Que tens, Mariana? perguntei.

E como ela no respondesse e
continuasse a olhar para mim, chamei em voz alta por minha me. Mariana
apressou-se a tapar-me a boca, e esquivando-se s minhas mos fugiu pelo
corredor fora.

Fiquei a olhar ainda alguns
instantes para ela, sem compreender nem as lgrimas, nem o gesto, nem a fuga. O
meu principal cuidado era outro; a lembrana do incidente passou depressa, fui
vestir-me e sa.

Quando voltei  casa no vi
Mariana, nem reparei na falta dela. Acontecia isso muitas vezes. Mas depois de
jantar lembrou-me o incidente da vspera e perguntei a Josefa o que haveria
magoado a rapariga que to romanescamente me falara no corredor.

 No sei, disse Josefa, mas
alguma coisa haver porque Mariana anda triste desde anteontem. Que supes tu?

 Alguma coisa faria e tem medo da
mame.

 No, disse Josefa; pode ser
antes algum namoro.

 Ah! tu pensas qu?

 Pode ser.

 E quem ser o namorado da
senhora Mariana, perguntei rindo. O copeiro ou o cocheiro?

 Tanto no sei eu; mas seja quem
for, ser algum que lhe inspirasse amor;  quanto basta para que se meream um
ao outro.

 Filosofia humanitria!

 Filosofia de mulher, respondeu
Josefa com um ar to srio que me imps silncio.

Mariana no me apareceu nos trs
dias seguintes. No quarto dia, estvamos almoando, quando ela atravessou a
sala de jantar, tomou a bno a todos e foi para dentro. O meu quarto ficava
alm da sala de jantar e tinha uma janela que dava para o ptio e enfrentava
com a janela do gabinete de costura. Quando fui para o meu quarto, Mariana
estava nesse gabinete ocupada em preparar vrios objetos para uns trabalhos de
agulha. No tinha os olhos em mim, mas eu percebia que o seu olhar acompanhava
os meus movimentos. Aproximei-me da janela e disse-lhe:

 Ests mais alegre, Mariana?

A mulatinha assustou-se, voltou a
cara para diversos lados, como se tivesse medo de que as minhas palavras fossem
ouvidas, e finalmente imps-me silncio com o dedo na boca.

 Mas que ? perguntei eu dando 
minha voz a moderao compatvel com a distncia.

Sua nica resposta foi repetir-me
o mesmo gesto.

Era evidente que a tristeza de
Mariana tinha uma causa misteriosa, pois que ela receava revelar nada a esse
respeito.

Que seria seno algum namoro como
minha irm supunha? Convencido disto, e querendo continuar uma investigao
curiosa, aproveitei a primeira ocasio que se me ofereceu.

 Que tens tu, Mariana? disse eu;
andas triste e misteriosa.  algum namorico? Anda, fala; tu s estimada por
todos c de casa. Se gostas de algum poders ser feliz com ele porque ningum
te opor obstculos aos teus desejos.

 Ningum? perguntou ela com
singular expresso de incredulidade.

 Quem teria interesse nisso?

 No falemos nisso, nhonh. No
se trata de amores, que eu no posso ter amores. Sou uma simples escrava.

 Escrava,  verdade, mas escrava
quase senhora. s tratada aqui como filha da casa. Esqueces esses benefcios?

 No os esqueo; mas tenho grande
pena em hav-los recebido.

 Que dizes, insolente?

 Insolente? disse Mariana com
altivez. Perdo! continuou ela voltando  sua humildade natural e ajoelhando-se
a meus ps; perdo, se disse aquilo; no foi por querer: eu sei o que sou; mas
se nhonh soubesse a razo estou certa que me perdoaria.

Comoveu-me esta linguagem da
rapariga. No sou mau; compreendi que alguma grande preocupao teria feito com
que Mariana esquecesse por instantes a sua condio e o respeito que nos devia
a todos.

 Est bom, disse eu, levanta-te e
vai-te embora; mas no tornes a dizer coisas dessas que me obrigas a contar
tudo  senhora velha.

Mariana levantou-se, agarrou-me na
mo, beijou-a repetidas vezes entre lgrimas e desapareceu.

Todos estes acontecimentos tinham
chamado a minha ateno para a mulatinha. Parecia-me evidente que ela sentia
alguma coisa por algum, e ao mesmo tempo que o sentia, certa elevao e
nobreza. Tais sentimentos contrastavam com a fatalidade da sua condio social.
Que seria uma paixo daquela pobre escrava educada com mimos de senhora?
Refleti longamente nisto tudo, e concebi um projeto romntico: obter a
confisso franca de Mariana e, no caso em que se tratasse de um amor que a
pudesse tornar feliz, pedir a minha me a liberdade da escrava.

Josefa aprovou a minha idia, e
incumbiu-se de interrogar a rapariga e alcanar pela confiana aquilo que me
seria mais difcil obter pela imposio ou sequer pelo conselho.

Mariana recusou dizer coisa
nenhuma a minha irm. Debalde empregou esta todos os meios de seduo possveis
entre uma senhora e uma escrava. Mariana respondia invariavelmente que nada
havia que confessar. Josefa comunicou-me o que se passara entre ambas.

Tentarei eu, respondi; verei se
sou mais feliz.

Mariana resistiu s minhas
interrogaes repetidas, asseverando que nada sentia e rindo de que se pudesse
supor semelhante coisa. Mas era um riso forado, que antes confirmava a
suspeita do que a negativa.

 Bem, disse eu, quando me
convenci de que nada podia alcanar; bem, tu negas o que te pergunto. Minha me
saber interrogar-te.

Mariana estremeceu.

 Mas, disse ela, por que razo
sinh velha h de saber disto? Eu j disse a verdade.

 No disseste, respondi eu; e no
sei por que recusas diz-la quando tratamos todos da tua felicidade.

 Bem, disse Mariana com
resoluo, promete que se eu disser a verdade no me interrogar mais?

 Prometo, disse eu rindo.

 Pois bem;  verdade que eu gosto
de uma pessoa...

 Quem ?

 No posso dizer.

 Por qu?

 Porque  um amor impossvel.

 Impossvel? Sabes o que so
amores impossveis?

Roou pelos lbios da mulatinha um
sorriso de amargura e dor.

 Sei! disse ela.

Nem pedidos, nem ameaas
conseguiram de Mariana uma declarao positiva a este respeito. Josefa foi mais
feliz do que eu; conseguiu no arrancar-lhe o segredo, mas suspeitar-lho, e
veio dizer-me o que lhe parecia.

 Que seja eu o querido de
Mariana? perguntei-lhe com um riso de mofa e incredulidade. Ests louca,
Josefa. Pois ela atrever-se-ia!...

 Parece que se atreveu.

 A descoberta  galante; e
realmente no sei o que pense disto...

No continuei, disse a Josefa que
no falasse em semelhante coisa e desistisse de maiores exploraes. Na minha
opinio o caso tomava outro carter; tratava-se de uma simples exaltao de
sentidos.

Enganei-me.

Cerca de cinco semanas antes do
dia marcado para o casamento, Mariana adoeceu. O mdico deu  molstia um nome
brbaro, mas na opinio de Josefa era doena de amor. A doente recusou tomar
nenhum remdio; minha me estava louca de pena; minhas irms sentiam deveras a
molstia da escrava. Esta ficava cada vez mais abatida; no comia, nem se
medicava; era de recear que morresse. Foi nestas circunstncias que eu resolvi
fazer um ato de caridade. Fui ter em Mariana e pedi-lhe que vivesse.

 Manda-me viver? perguntou ela.

 Sim.

Foi eficaz a lembrana; Mariana
restabeleceu-se em pouco tempo. Quinze dias depois estava completamente de p.

Que esperanas concebera ela com
as minhas palavras, no sei; cuido que elas s tiveram efeito por lhe acharem o
esprito abatido. Acaso contaria ela que eu desistisse do casamento projetado e
do amor que tinha  prima, para satisfazer os seus amores impossveis? No sei;
o certo  que no s se lhe restaurou a sade como tambm lhe voltou a alegria
primitiva.

Confesso, entretanto que, apesar
de no competir de modo nenhum os sentimentos de Mariana, entrei a olhar para
ela com outros olhos. A rapariga tornara-se interessante para mim, e qualquer
que seja a condio de uma mulher, h sempre dentro de ns um fundo de vaidade
que se lisonjeia com a afeio que ela nos vote. Alm disto, surgiu em meu
esprito uma idia que a razo pode condenar, mas que nossos costumes aceitam
perfeitamente. Mariana encarregara-se de provar que estava acima das
veleidades. Um dia de manh fui acordado pelo alvoroo que havia em casa. Vesti-me  pressa e fui saber o que era. Mariana tinha desaparecido de casa. Achei
minha me desconsoladssima: estava triste e indignada ao mesmo tempo. Doa-lhe
a ingratido da escrava. Josefa veio ter comigo.

 Eu suspeitava, disse ela, que
alguma coisa acontecesse. Mariana andava alegre demais; parecia-me
contentamento fingido para encobrir algum plano. O plano foi este. Que te
parece?

 Creio que devemos fazer esforos
para captur-la, e uma vez restituda  casa, coloc-la na situao verdadeira
do cativeiro.

Disse isto por me estar a doer o
desespero de minha me. A verdade  que, por simples egosmo, eu desculpava o
ato da rapariga.

Parecia-me natural, e agradava-me
ao esprito, que a rapariga tivesse fugido para no assistir  minha ventura,
que seria realidade da a oito dias. Mas a idia de suicdio veio aguar-me o
gosto; estremeci com a suspeita de ser involuntariamente causa de um crime
dessa ordem; impelido pelo remorso, sa apressadamente em busca de Mariana.

Achei-me na rua sem saber o que
devia fazer. Andei cerca de vinte minutos inutilmente, at que me ocorreu a
idia natural de recorrer  polcia; era prosaica a interveno da polcia, mas
eu no fazia romance; ia simplesmente em cata de uma fugitiva.

A polcia nada sabia de Mariana;
mas l deixei a nota competente; correram agentes em todas as direes: fui eu
mesmo saber nos arrabaldes se havia notcia de Mariana. Tudo foi intil; s
trs horas da tarde voltei para casa sem poder tranqilizar minha famlia. Na
minha opinio tudo estava perdido.

Fui  noite  casa de Amlia,
aonde no fora de tarde, motivo pelo qual havia recebido um recado em carta a
uma de minhas irms. A casa de minha prima ficava em uma esquina. Eram oito
horas da noite quando cheguei  porta da casa. A trs ou quatro passos estava
um vulto de mulher cosido com a parede. Aproximei-me: era Mariana.

 Que fazes aqui? perguntei eu.

 Perdo, nhonh; vinha v-lo.

 Ver-me? mas por que saste de
casa, onde eras to bem tratada, e donde no tinhas o direito de sair, porque
s cativa?

 Nhonh, eu sa porque sofria
muito...

 Sofrias muito! Tratavam-te mal?
Bem sei o que ; so os resultados da educao que minha me te deu. J te
supes senhora e livre. Pois enganas-te; hs de voltar j, e j, para casa.
Sofrers as conseqncias da tua ingratido. Vamos...

 No! disse ela; no irei.

 Mariana, tu abusas da afeio
que todos temos por ti. Eu no tolero essa recusa, e se me repetes isso...

 Que far?

 Irs  fora - irs com
dois soldados.

 Nhonh far isso? disse ela com
voz trmula. No quero obrig-lo a incomodar os soldados, iremos juntos, ou
irei s. O que eu queria,  que nhonh no fosse to cruel... porque enfim eu
no tenho culpa se... Pacincia! vamos... eu vou.

Mariana comeou a chorar. Tive
pena dela.

 Tranqiliza-te, Mariana,
disse-lhe; eu intercederei por ti. Mame no te far mal.

 Que importa que faa? Eu estou
disposta a tudo... Ningum tem que ver com as minhas desgraas... Estou pronta;
podemos ir.

 Saibamos outra coisa, disse eu,
algum te seduziu para fugir?

Esta pergunta era astuciosa; eu
desejava apenas desviar do esprito da rapariga qualquer suspeita de que eu
soubesse dos seus amores por mim. Foi desastrada a astcia. O nico efeito da
pergunta foi indign-la.

 Se algum me seduziu? perguntou
ela; no, ningum; fugi porque eu o amo, e no posso ser amada, eu sou uma
infeliz escrava. Aqui est por que eu fugi. Podemos ir; j disse tudo. Estou
pronta a carregar com as conseqncias disto.

No pude arrancar mais nada 
rapariga. Apenas quando lhe perguntei se havia comido, respondeu-me que no,
mas que no tinha fome.

Chegamos  casa eu e ela perto das
nove horas da noite. Minha me j no tinha esperanas de tornar a ver Mariana;
o prazer que a vista da escrava lhe deu foi maior que a indignao pelo seu
procedimento. Comeou por invectiv-la. Intercedi a tempo de acalmar a justa
indignao de minha me e Mariana foi dormir tranqilamente.

No sei se tranqilamente. No dia
seguinte tinha os olhos inchados e estava triste. A situao da pobre rapariga
interessara-me bastante, o que era natural, sendo eu a causa indireta daquela
dor profunda. Falei muito nesse episdio em casa de minha prima. O tio Joo
Lus disse-me em particular que eu fora um asno e um ingrato.

 Por qu? perguntei-lhe.

 Porque devias ter posto Mariana
debaixo da minha proteo, a fim de livr-la do mau tratamento que vai ter.

 Ah! no, minha me j lhe
perdoou.

 Nunca lhe perdoar como eu.

Falei tanto em Mariana que minha
prima entrou a sentir um disparatado cime. Protestei-lhe que era loucura e
abatimento ter zelos de uma cria de casa, e que o meu interesse era simples
sentimento de piedade. Parece que as minhas palavras no lhe fizeram grande
impresso.

Extremamente leviana, Amlia no
soube conservar a necessria dignidade, quando foi a minha casa. Conversou
muito na necessidade de tratar severamente as escravas, e achou que era dar mau
exemplo mandar-lhes ensinar alguma coisa.

Minha me admirou-se muito desta
linguagem na boca de Amlia e redarguiu com aspereza o que lhe dava direito a
sua vontade. Amlia insistiu; minhas irms combateram as suas opinies: Amlia
ficou amuada. No havia pior posio para uma senhora.

Nada escapara a Mariana desta conversa
entre Amlia e minha famlia; mas ela era dissimulada e nada disse que pudesse
trair os seus sentimentos. Pelo contrrio redobrou de esforos para agradar a
minha prima; desfez-se em agrados e respeitos. Amlia recebia todas essas
demonstraes com visvel sobranceria em vez de as receber com fria dignidade.

Na primeira ocasio em que pude
falar a minha prima, chamei a sua ateno para esta situao absurda e
ridcula. Disse-lhe que, sem o querer, estava a humilhar-se diante de uma
escrava. Amlia no compreendeu o sentimento que me ditou estas palavras, nem a
procedncia das minhas palavras. Viu naquilo uma defesa de Mariana;
respondeu-me com algumas palavras duras e retirou-se para os aposentos de
minhas irms onde chorou  vontade. Finalmente tudo se acalmou e Amlia voltou
tranqila para casa.

Quatro dias antes do dia marcado
para o meu casamento, era a festa do natal. Minha me costumava dar festas s
escravas. Era um costume que lhe deixara minha av. As festas consistiam em
dinheiro ou algum objeto de pouco valor. Mariana recebia ambas as coisas por
uma especial graa. De tarde tiveram gente em casa para jantar: alguns amigos e
parentes. Amlia estava presente. Meu tio Joo Lus era grande amador de
discursos  sobremesa. Mal comeavam a entrar os doces, quando ele se levantou
e comeou um discurso que a julgar pelo intrito, devia ser extenso. Como ele
tinha suma graa, eram gerais as risadas desde que empunhou o copo. Foi no meio
dessa geral alegria que uma das escravas veio dar parte de que Mariana havia
desaparecido.

Este segundo ato de rebeldia da
mulatinha produziu a mais furiosa impresso em todos. Da primeira vez houve alguma mgoa e saudade de mistura com a indignao. Desta vez
houve indignao apenas. Que sentimento devia inspirar a todos a insistncia
dessa rapariga em fugir de uma casa onde era tratada como filha? Ningum
duvidou mais que Mariana era seduzida por algum, idia que na primeira vez se
desvaneceu mediante uma piedosa mentira da minha parte; como duvidar agora?

Tais no eram as minhas
impresses. Senhor do funesto segredo da escrava, sentia-me penalizado por ser
causa indireta das loucuras dela e das tristezas de minha me. Ficou assentado
que se procuraria a fugitiva e se lhe daria o castigo competente. Deixei que
esse momento de clera se consumasse, e levantei-me para ir procurar Mariana.

Amlia ficou desgostosa com esta
resoluo, e bem o revelou no olhar; mas eu fingi que a no percebia e sa.

Dei os primeiros passos
necessrios e usuais. A polcia nada sabia, mas ficou avisada e empregou meios
para alcanar a fugitiva. Eu suspeitava que desta vez ela tivesse cometido
suicdio; fiz neste sentido as diligncias necessrias para ter alguma notcia
dela viva ou morta.

Tudo foi intil.

Quando voltei  casa eram dez horas
da noite; todos estavam  minha espera, menos o tio e a prima que j se haviam
retirado.

Minha irm contou-me que Amlia
sara furiosa, porque achava que eu estava dando maior ateno do que devia a
uma escrava, embora bonita, acrescentou ela.

Confesso que naquele momento o que
me preocupava mais era Mariana; no porque eu correspondesse aos seus
sentimentos por mim, mas porque eu sentia srios remorsos de ser causa de um
crime. Fui sempre pouco amante de aventuras e lances arriscados e no podia
pensar sem algum terror na possibilidade de morrer algum por mim.

Minha vaidade no era tamanha que
me abafasse os sentimentos de piedade crist. Neste estado as invectivas da
minha noiva no me fizeram grande impresso, e no foi por causa delas que eu
passei a noite em claro.

Continuei no dia seguinte as
minhas pesquisas, mas nem eu nem a polcia fomos felizes.

Tendo andado muito, j a p, j de
tlburi, achei-me s cinco horas da tarde no Largo de S. Francisco de Paula,
com alguma vontade de comer; a casa ficava um pouco longe e eu queria continuar
depois as minhas averiguaes. Fui jantar a um hotel que ento havia na antiga
Rua dos Latoeiros.

Comecei a comer distrado e
ruminando mil idias contrrias, mil suposies absurdas. Estava no meio do jantar
quando vi descer do segundo andar da casa um criado com uma bandeja onde havia
vrios pratos cobertos.

 No quer jantar, disse o criado
ao dono do hotel que se achava no balco.

 No quer? perguntou este; mas
ento... no sei o que faa... reparaste se... Eu acho bom ir chamar a polcia.

Levantei-me da mesa e aproximei-me
do balco.

 De que se trata? perguntei eu.

 De uma moa que aqui apareceu
ontem, e que ainda no comeu at hoje...

Pedi-lhe os sinais da pessoa
misteriosa. No havia dvida. Era Mariana.

 Creio que sei quem , disse eu,
e ando justamente em procura dela. Deixe-me subir.

O homem hesitou; mas a
considerao de que no lhe podia convir continuar a ter em casa uma pessoa por
cuja causa viesse a ter questes com a polcia, fez com que me deixasse o
caminho livre.

Acompanhou-me o criado, a quem
incumbi de chamar por ela, porque se conhecesse a minha voz, supunha eu que me
no quisesse abrir.

Assim se fez. Mariana abriu a
porta e eu apareci. Deu um grito estridente e lanou-se-me nos braos. Repeli
aquela demonstrao com toda a brandura que a situao exigia.

 No venho aqui para receber-te
abraos, disse eu; venho pela segunda vez buscar-te para casa, donde pela
segunda vez fugiste.

A palavra fugiste escapou-me
dos lbios; todavia, no lhe dei importncia seno quando vi a impresso que
ela produziu em Mariana. Confesso que devera ter alguma caridade mais; mas eu
queria conciliar os meus sentimentos com os meus deveres, e no fazer com que a
mulher no se esquecesse de que era escrava. Mariana parecia disposta a sofrer
tudo dos outros, contanto que obtivesse a minha compaixo. Compaixo tinha-lhe
eu; mas no lho manifestava, e era esse todo o mal.

Quando a fugitiva recobrou a fala,
depois das emoes diversas por que passara desde que me viu chegar, declarou
positivamente que era sua inteno no sair dali. Insisti com ela dizendo-lhe
que poderia ganhar tudo procedendo bem, ao passo que tudo perderia continuando
naquela situao.

 Pouco importa, disse ela; estou
disposta a tudo.

 A matar-te, talvez? perguntei
eu.

 Talvez, disse ela sorrindo
melancolicamente; confesso-lhe at que a minha inteno era morrer na hora do
seu casamento, a fim de que fossemos ambos felizes,  nhonh casando-se, eu
morrendo.

 Mas desgraada, tu no vs
que...

 Eu bem sei o que vejo, disse
ela; descanse; era essa a minha inteno, mas pode ser que o no faa...

Compreendi que era melhor lev-la
pelos meios brandos; entrei a empreg-los sem esquecer nunca a reserva que me
impunha a minha posio. Mariana estava resolvida a no voltar. Depois de
gastar cerca de uma hora, sem nada obter, declarei-lhe positivamente que ia
recorrer aos meios violentos, e que j lhe no era possvel resistir.
Perguntou-me que meios eram; disse-lhe que eram os agentes policiais.

 Bem vs, Mariana, acrescentei,
sempre hs de ir para casa;  melhor que me no obrigues a um ato que me
causaria alguma dor.

 Sim? perguntou ela com nsia;
teria dor em levar-me assim para casa?

 Alguma pena teria decerto,
respondi; porque tu foste sempre boa rapariga; mas que farei eu se continuas a
insistir em ficar aqui?

Mariana encostou a cabea  parede
e comeou a soluar; procurei acalm-la; foi impossvel. No havia remdio; era
necessrio empregar o meio herico. Sa ao corredor para chamar pelo criado que
tinha descido logo depois que a porta se abriu.

Quando voltei ao quarto, Mariana
acabava de fazer um movimento suspeito. Parecia-me que guardava alguma coisa no
bolso. Seria alguma arma?

 Que escondeste a? perguntei eu.

 Nada, disse ela.

 Mariana, tu tens alguma idia
terrvel no esprito... Isso  alguma arma...

 No, respondeu ela.

Chegou o criado e o dono da casa.
Expus-lhes em voz baixa o que queria; o criado saiu, o dono da casa ficou.

 Eu suspeito que ela tem alguma
arma no bolso para matar-se; cumpre arrancar-lha.

Dizendo isto ao dono da casa,
aproximei-me de Mariana.

 D-me o que tens a.

Ela contraiu um pouco o rosto.
Depois, metendo a mo no bolso, entregou-me o objeto que l havia guardado.

Era um vidro vazio.

 Que  isto, Mariana? perguntei
eu, assustado.

 Nada, disse ela; eu queria
matar-me depois damanh. Nhonh apressou a minha morte, nada mais.

 Mariana! exclamei eu aterrado.

 Oh! continuou ela com voz fraca;
no lhe quero mal por isso. Nhonh no tem culpa: a culpa  da natureza. S o
que eu lhe peo  que no me tenha raiva, e que se lembre algumas vezes de
mim...

Mariana caiu sobre a cama. Pouco
depois entrava o inspetor. Chamou-se  pressa um mdico; mas era tarde. O
veneno era violento; Mariana morreu s 8 horas da noite.

Sofri muito com este
acontecimento; mas alcancei que minha me perdoasse  infeliz, confessando-lhe
a causa da morte dela. Amlia nada soube, mas nem por isso deixou o fato de
influir em seu esprito. O interesse com que eu procurei a rapariga, e a dor
que a sua morte me causou, transtornaram a tal ponto os sentimentos da minha
noiva, que ela rompeu o casamento dizendo ao pai que havia mudado de resoluo.

Tal foi, meus amigos, este
incidente da minha vida. Creio que posso dizer ainda hoje que todas as mulheres
de quem tenho sido amado, nenhuma me amou mais do que aquela. Sem alimentar-se
de nenhuma esperana, entregou-se alegremente ao fogo do martrio; amor
obscuro, silencioso, desesperado, inspirando o riso ou a indignao, mas no
fundo, amor imenso e profundo, sincero e inaltervel.

Coutinho concluiu assim a sua narrao,
que foi ouvida com tristeza por todos ns. Mas da a pouco saamos pela Rua do
Ouvidor fora, examinando os ps das damas que desciam dos carros, e fazendo a
esse respeito mil reflexes mais ou menos engraadas e oportunas. Duas horas de
conversa tinha-nos restitudo a mocidade.
